quinta-feira, 24 de maio de 2018

Religação Requerida pela Religião



Muitos cristãos têm uma leitura danificada pelo misticismo a respeito do procedimento religioso. Seu comportamento não aponta segurança, por força de exagerada demonstração de espiritualidade, que vai muito além do próprio conceito bíblico, tornando a religião um ideal pouco prático.

Na verdade, de acordo com as escrituras sagradas, bem como a revelação deixada pelo comportamento de Jesus quando viveu entre nós, a religação com Deus e seu Reino se dá pela via da cooperação entre Deus e os homens, mas também entre os próprios homens.

O conceito de cooperação está logo no capítulo primeiro do livro de Gênesis, onde vemos a elaboração da criação como um ato conjunto da trindade: façamos. Aliás, essa cooperação entre os membros da trindade expressa, com toda ênfase, o princípio da Lei dos dez mandamentos, onde a cooperação é uma ordenação que comanda colaboração com Deus e cooperação entre os homens. A ação conjunta da trindade é, além disso, ressaltada, por exemplo, quando da intervenção, após dilúvio, na torre de Babel (Gên.11:7). Mas, a ação mais espetacular da trindade deu-se na encarnação de Jesus, seu nascimento, desenvolvimento, sacrifício e ressurreição. Em todos os momentos da experiência de vivida por Jesus na Terra, havia uma ligação infringível da trindade na consecução do plano para redenção para os homens. No capítulo 16 do evangelho de João, Jesus demonstra a atuação cooperativa da trindade de uma forma evidente, ensinando como se dá a administração celeste e qual o ideal para os homens.

Já na criação, no jardim do Éden, ao determinar a função humana, a Adão foi dada a responsabilidade de cuidar do jardim. Nessa ordem pode-se ver que a dinâmica impostas por Deus determinou que deveria necessariamente haver cooperação entre Deus e o homem. Deus criara o mundo físico, obedecendo a claros padrões de cooperação (Salmos 19:2), mas ao homem caberia a conservação do mundo físico e a criação do mundo social, obedecendo os mesmos critérios. E assim foi. Quando Adão despertou do sono e foi-lhe entregue a sua mulher, ele exclamou: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada” (Gên. 2:23), significando que ele iria cooperar com ela. Porém, logo após a queda, Adão mostrou comportamento oposto, quando disse que “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi” (Gên. 3:12), demonstrando que a cooperação parecia estar extinta.

Desauxiliar, desassistir, foram os verbos que entraram em ação após o pecado ter entrado na criação de Deus. Um bom exemplo é o dos irmãos Caim e Abel. Quando foram oferecer um culto a Deus, ficou evidenciada a desfiguração da obra da criação. Caim matou Abel e em seguida, Deus dialoga com Cain: (Gên.4:9) “E disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão?” Na resposta de Caim encontra-se o resultado de um novo estado moral; ausência da Lei de Deus, ambiente de desauxilio.

Na situação pós pecado, o assunto da cooperação não ficou preterido, mas foi salientado através do culto sacrifical. Os altares erguidos eram obras do homem, mas o cordeiro imolado era obra de Deus. É importante deixar sempre manifesto que a Lei de Deus requer cooperação, assim, todos os atos religiosos, ou seja, os que produzem a religação com Deus, são atos cooperativos entre criador e criatura, uma exigência do sistema de administração divino.

Quando da construção do santuário, Deus atuou oferecendo o modelo ou a planta do edifício, com todos os utensílios obrigatório, mas ao homem coube o gerar os recursos necessários, o desenvolver da obra dos artífices, os quais foram abençoados com dotes especiais por Deus, assim a construção do edifício portátil deu-se da melhor forma. A dobradinha Deus-homem explicitamente operada resultou na aceitação por Deus daquele espaço feito pelo homem. Mas, muito além do edifício, todo ritual do santuário era uma cooperação entre Deus e os homens. O raciocínio que comandava os principais rituais tinha na cooperação o motivo e a força.

Três eram os principais sacrifícios oferecidos no santuário: O sacrifício pelo pecado, o sacrifício queimado ou holocausto e as ofertas pacíficas.

O sacrifício pelo pecado, uma dádiva de Deus, era oferecido somente em ocasiões especiais. Era o sumo sacerdote na condição de representante de Deus quem o oferecia, para o caso de pecados que não eram conscientemente cometidos. Algumas ocasiões onde fora oferecido: no Éden, logo após a queda; na inauguração do tabernáculo; no dia da expiação; nas três principais festas (Dia da Expiação, Ano novo, festa das cabanas).

O sacrifício queimado ou holocausto estava na responsabilidade do homem; era oferecido diariamente (manhã e tarde) pelo sacerdote para cobrir as faltas do povo, no caso de não ser possível ao israelita oferecer imediatamente um holocausto pelo pecado conhecido. Todavia, o pecador teria que, pelo menos uma vez ao ano, espontaneamente oferecer seu holocausto pessoal. Colocando as mãos sobre a cabeça do cordeiro, transferia ao cordeiro a sua culpa. O sacrifício era totalmente queimado, simbolizando o total arrependimento do pecador. Agora chamamos a atenção para a equação montada pela providência de Deus e pela ação humana; o primeiro sacrifício era de Deus, o segundo era do homem. Tal soma produzia o terceiro termo do silogismo matemático, ou seja, após a execução dos dois sacrifícios deveria ocorrer o terceiro sacrifício chamado de oferta pacífica. Este simbolizava a religação entre Deus e o homem. Neste sacrifício havia a comemoração da paz. O pecador oferecia bolo feito de flor de farinha e vinho, elementos que eram compartilhados com o sacerdote e com os amigos. Os três sacrifícios desenvolviam o que a Bíblia chama de expiação, um processo no qual vemos a cooperação exigida pelo princípio da Lei que embasa o governo de Deus.

Quando Jesus esteve pessoalmente entre os homens, várias vezes ensinou o princípio da cooperação Deus-homem.  Quando um jovem rico O procurou depois de Jesus ter proferido o famoso discurso ao lado do mar da Galileia, perguntando “Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?” (Mat.9:16-23), Jesus demonstrou com muita ênfase a cooperação que ele deveria buscar com Deus, guardando os mandamentos, depois Ele ensinou como deveria ocorrer a cooperação entre os homens. Mas o jovem não ficou feliz, uma vez que não acolhera a cooperação entre semelhantes. Em outra ocasião quando Jesus entrava em Jericó, um homem chamado Zaqueu foi privilegiado com uma visita de Jesus. No término da conversa (aliás, o relato mostra apenas Zaqueu falando (Lucas 19)) Zaqueu diz: “Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado”. Então Jesus dialoga dizendo: “Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão”. Aqui manifestamente Jesus explica que a cooperação é o motivo do Seu Reino. O roubo havia retirado Zaqueu da comunhão com Deus e com o próximo, mas agora a religação havia ocorrido. No milagre da multiplicação dos pães narrado no evangelho de João (capítulo 6), há um diálogo onde Jesus parece examinar se a cooperação estava compreendida pelos discípulos.  Ele pergunta a Filipe: “Onde compraremos pão, para estes comerem? Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que havia de fazer”. A resposta de Filipe dá ares de que havia um pouco de dúvidas: “Duzentos dinheiros de pão não lhes bastarão, para que cada um deles tome um pouco”. Tal quantidade de dinheiro era o pagamento por um ano de trabalho assalariado. Filipe como que demonstra que seria necessária uma fortuna e muito trabalho para alimentar a multidão. Porém, André parece ter compreendido estar na presença do grande legislador dos Dez Mandamentos e exclama: “Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isto para tantos?” Jesus percebendo a dimensão da fé manada que todos se assentem “tomou os pães e, havendo dado graças, repartiu-os pelos discípulos, e os discípulos pelos que estavam assentados; e igualmente também dos peixes, quanto eles queriam”. Outra vez ensinou e demonstrou que no seu universo o natural são as ações realizadas por Deus e por suas criaturas, e sempre que a cooperação Deus-criaturas acontece, grandes feitos são realizados.

O grande apóstolo Paulo, em sua carta aos Filipenses (capítulo 2:12) exorta que “assim também operai a vossa salvação com temor e tremor”, ou seja, contribuam com Deus pois a salvação ocorre a partir da cooperação Deus-homem. A graça ou o conhecimento dado por Deus conduz a boas obras (Rm 6:11-16). Desta forma, as obras são a consumação da graça que efetua nossa salvação (Rm 6:18; 2Co 6:1). O SDA Bible Commentary explicando Filipenses 2:12, diz o que segue: “Muitos são atraídos ao cristianismo, mas não estão dispostos a preencher as condições pelas quais a recompensa do cristão pode ser alcançada. Se pudessem obter a salvação sem esforço, estariam mais que felizes em receber tudo o que o Senhor poderia lhes dar. No entanto, as Escrituras ensinam que cada pessoa deve cooperar com a vontade e o poder de Deus”.

A compreensão do sistema administrativo divino levará a um novo sistema religioso. Muitos de nós pensamos que Deus está muito longe e que a religião deve ser um meio muito diáfano e etéreo de comunicação com Deus. Por essa razão o misticismo pode muito explicar como proceder. Mas, diferentemente desse raciocínio, a religião (religação) verdadeira estabelece um serviço de cooperação Deus-homem, o próprio sistema celeste de administrar. É claro que Deus é maior que qualquer criatura, assim, o que o homem não pode fazer Deus faz, mas é imprescindível a cooperação. A salvação não é pelas obras, mas deve ser desenvolvida. Ela decorre apenas da mediação de Cristo, mas é vivida por cooperação pessoal. Por mais que reconheçamos nossa profunda dependência dos méritos, da obra e do poder de Cristo, também devemos estar cientes de nossa obrigação pessoal de viver diariamente, pela graça de Deus, uma vida coerente com os princípios divinos.

Qual a obra que o homem pode fazer? Na igreja cristã atual há em sua dinâmica ocasiões para cooperar com Deus (através dos dízimos, por exemplo) como também cooperar com o próximo (ajudas de qualquer ordem e ofertas missionárias, por exemplo), são essas cooperações que dão o verdadeiro caráter da religação promovida pela religião. Em Mateus 25:31-46 encontramos as características daqueles que estarão religados a Deus e, consequentemente, serão levados com Ele às mansões eternas, mas também estão relatadas as características dos que não serão religados: “E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?  E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.

Qualquer sistema religioso que não estiver ensinando e praticando a cooperação Deus-homem não é digno de confiança e deverá ser abandonado. Qualquer sistema religioso que estabeleça o serviço a Deus como meio, e muitos casos repleto de misticismo, para atingir benefícios pessoais sem a necessária preocupação com a prática da justiça, ou o bem estar do próximo, é necessariamente falso.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Um manancial, cujas águas nunca faltam


Sempre que quisermos alcançar qualquer assunto (especialmente no âmbito bíblico), e sempre que quisermos contextualizar o presente, obrigatoriamente teremos que dominar o passado; referimo-nos às origens, pois a realidade atual é consequência dos acontecimentos passados. Assim, voltemos no tempo ao período no qual principiou o grande conflito entre o bem e o mal. “E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte. Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo” (Apoc. 12:7-10).

O texto bíblico trata de dois períodos distintos e disjuntos na história cósmica. A expulsão de Lúcifer com os anjos que o apoiaram ocorreu antes da criação da Terra. Quando o texto passa a tratar da chegada da salvação, o tempo corresponde a contemporaneidade de Cristo entre os homens. Explica que mesmo que o diabo tenha vindo à Terra, os homens venceram pelo sangue do cordeiro e pela palavra do seu testemunho. Ellen White, no livro O Desejado de todas as nações, à página 26, explica o que significa vencer pelo sangue e pela palavra do testemunho, dizendo: “Satanás aborrecera a Cristo no Céu, por causa de Sua posição nas cortes de Deus. Mais ainda O aborreceu quando se sentiu ele próprio destronado. Odiou Aquele que Se empenhou em redimir uma raça de pecadores. Não obstante, ao mundo em que Satanás pretendia domínio, permitiu Deus que viesse Seu Filho, impotente criancinha, sujeito à fraqueza da humanidade. Permitiu que enfrentasse os perigos da vida em comum com toda a alma humana, combatesse o combate como qualquer filho da humanidade o tem de fazer, com risco de fracasso e ruína eterna. O coração do pai humano compadece-se do filho. Olha a fisionomia do pequenino, e treme ante a idéia dos perigos da vida. Anela proteger seu querido do poder de Satanás, guardá-lo da tentação e do conflito. Para enfrentar mais amargo conflito e mais terrível risco Deus deu Seu Filho unigênito, para que a vereda da vida fosse assegurada aos nossos pequeninos. “Nisto está o amor.” Maravilhai-vos, ó céus! e assombrai-vos, ó Terra!”

No livro “História da Redenção, página 19, a mesma autora diz que “[...] Toda a hoste celestial reconheceu e adorou o Deus da justiça. Nenhuma mácula de rebelião foi deixada no Céu. Tudo voltara a ser paz e harmonia como antes. Os anjos do Céu lamentaram a sorte daqueles que tinham sido seus companheiros de felicidade e alegria. Sua perda era sentida no Céu”. É importante verificar que o texto acima explica que a hoste celestial, ou seja, os anjos, reconheceram a justiça de Deus, porém, o restante do universo não está incluído na informação, significando que a dúvida sobre a aplicação da justiça estava ainda permeando o universo.

Em seguida ao desfecho do conflito no céu, culminando com a expulsão dos rebeldes, o Pai consultou o filho. Veja como o livro História da Redenção, página 20, expõe: “O Pai consultou Seu Filho com respeito à imediata execução de Seu propósito de fazer o homem para habitar a Terra. Colocaria o homem sob prova a fim de testar sua lealdade antes que ele pudesse ser posto eternamente fora de perigo. Se ele suportasse ao teste com o qual Deus considerava conveniente prová-lo, seria finalmente igual aos anjos. Teria o favor de Deus, podendo conversar com os anjos, e estes com ele. Deus não achou conveniente colocar os homens fora do poder da desobediência”.

Analisando a exposição acima, algumas perguntas surgem: 1. Por que o Pai consultou o filho para “execução imediata” de seu propósito de fazer o homem para habitar a Terra? 2. Por que deveria o homem ser colocado sob prova a fim de testar sua lealdade?

Na mesma página 20, a autora explica o que segue: “Pai e Filho empenharam-Se na grandiosa, poderosa obra que tinham planejado — a criação do mundo. A Terra saiu das mãos de seu Criador extraordinariamente bela. Havia montanhas, colinas e planícies, entrecortadas por rios e lagos. A Terra não era uma extensa planície, mas a monotonia do cenário era quebrada por montanhas e colinas não altas e abruptas como hoje são, mas de formas regulares e belas. As rochas altas e desnudas não podiam ser vistas sobre ela, mas estavam debaixo da superfície, correspondendo aos ossos da Terra. As águas estavam distribuídas regularmente. As montanhas, as colinas e as belíssimas planícies eram adornadas com plantas, flores e árvores altas e majestosas de toda espécie, muitas vezes maiores e mais belas do que são agora. O ar era puro e saudável, e a Terra parecia um nobre palácio. Os anjos deleitavam-se e regozijavam-se com as maravilhosas obras de Deus”.

O empenho do Pai e do Filho na grandiosa obra, a Terra extraordinariamente bela chama nossa atenção, ainda mais porque os anjos deleitavam-se e regozijavam-se com a maravilhosa obra. Por acaso as outras obras que Deus já realizara não eram boas e maravilhosas também? Por qual motivo os anjos maravilhavam-se? Quer nos parecer que a Terra seria um projeto dentro do plano emergencial para o caso do surgimento do pecado. Por essa razão o Pai consultou o Filho sobre a execução imediata. A beleza extraordinária, incomum, é algo que merece um pouco de atenção. O termo beleza na Bíblia, ou no ambiente do Antigo Testamento significa o perfeito funcionamento da lei de Deus. Extraordinariamente bela, ou seja, funcionamento mais que adequado da lei, fato expresso na afirmação de Deus quando disse que a criação era boa (Gênesis 1). Um detalhe que pode parecer insignificante na citação acima de Ellen White é “as águas estavam distribuídas regularmente”, indicando que em qualquer lugar da Terra havia água, cenário muito diferente do atual, onde há extensas áreas terrestres sem água. Também, havia uma distribuição regular de três relevos, montanhas, colinas e planícies. Estas informações deixam transparecer que havia justiça na distribuição dos relevos e da água. Em qualquer lugar esses elementos podiam ser encontrados. A justiça, o atributo atacado pelos rebeldes, estava demonstrada pela criação da Terra. Tudo estava funcionando dentro dos princípios justos numa demonstração de como a lei de Deus deve operar.

Em seguida vem a criação do homem. Após levarem a cabo seu propósito de criar a Terra e toda a vida nela, o Pai e o Filho consentiram em fazer o homem à sua própria imagem. Os atributos de justiça de Deus estavam no homem. Se olharmos melhor a sequenciada criação, vamos encontrar que após a expulsão dos rebeldes do céu, a Terra e homem são criados, extraordinariamente belos; os anjos estavam admirados com toda criação. Há uma clara indicação de que a nova criação era uma demonstração cabal do funcionamento da lei de Deus e da Sua justiça. O universo deveria ver e estudar sobre a justiça de Deus através da criação concluída.

No periódico The Review and Herald, 18 de Novembro de 1888, Ellen White escreveu o que segue: “Manifesta-se o poder de Deus no bater do coração, na ação dos pulmões, e nas correntes vivas que circulam pelos mil diferentes condutos do corpo. Somos-Lhe devedores por todo momento de existência, e por todos os confortos da vida. As faculdades e habilitações que elevam o homem acima da criação inferior, são dotes do Criador. Ele nos cumula de benefícios Seus. Somos-Lhe devedores do alimento que comemos, da água que bebemos, da roupa que vestimos, do ar que respiramos. Sem a Sua especial providência, o ar estaria cheio de pestilência e de veneno. Ele é generoso benfeitor e preservador. O Sol que brilha sobre a Terra, e embeleza toda a Natureza, a encantadora e solene luminosidade da Lua, os esplendores do firmamento, salpicado de brilhantes estrelas, as chuvas que refrescam a terra, e fazem florescer a vegetação, as preciosas coisas da Natureza em toda a sua variada riqueza, as árvores altaneiras, os arbustos e as plantas, o grão tremulante, o céu azul, a terra verde, a mudança do dia e da noite, a renovação das estações, tudo fala ao homem do amor de seu Criador. Tem-nos Ele ligado a Si mesmo por todos esses laços do Céu e da Terra. Cuida de nós com mais ternura do que cuida uma mãe de um filho em aflição”. Tais afirmativas mostram o caráter de um Deus generoso e benfeitor que colocou no homem o seu próprio caráter e, como consequência, a criatura tornou-se um recipiente contínuo com a função de ser doador contínuo. Recebendo de Deus deveria abençoar seus semelhantes e a todos os tipos de vida colocados ao seu dispor. E assim, foi-lhe dada a ordem de cuidar (Gênesis 2:15).

Agora vamos olhar por outro prisma o caráter de Deus e a Sua lei em funcionamento. Após a criação dos domínios (ar, terra e água) e dos seus preenchimentos com as formas animadas e inanimadas, Deus cria, no sétimo dia, um marco moral muitíssimo importante o qual chamou de “shabath” (sábado), uma expressão hebraica que significa cessar.

No livro Desejado de Todas as Nações, página 192, Ellen White explana sobre a razão do cessar no shabath: “O sábado foi santificado na criação. Instituído para o homem, teve sua origem quando “as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam”. Jó 38:7. Pairava sobre o mundo a paz; pois a Terra estava em harmonia com o Céu. “Viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31); e Ele repousou na alegria de Sua concluída obra”. Gênesis 2:1-3 assinala que “Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados. E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera”. Portanto, Deus separou o dia sétimo para uso santo. Deu-o a Adão como dia de repouso no qual ele deviria ver um sinal do poder de Deus e do Seu amor, como afirma a escritura no Salmo 111:4 “Fez lembradas as Suas maravilhas”. Diz a escritora Ellen White no livro Desejado de Todas as Nações, página 20, que as coisas que estão criadas declaram os atributos invisíveis de Deus, Seu poder e Sua divindade (Romanos 1:20). A Divindade de Deus está revelada na criação. No hebraico divindade significa transcendência, ou seja, o caráter inerente daquilo que é de natureza superior, portanto, radicalmente diferente e separado da realidade sensível.

Se Deus criou o homem à Sua imagem, há no homem divindade também. O ser criado causou admiração aos anjos. Certamente a capacidade de ser de natureza superior, de ir além da realidade sensível causou admiração. Destarte, se a criação torna visível a divindade de Deus, o que tornaria visível a divindade do homem?

Agora vamos buscar compreender a razão pela qual Deus cria o shabath e o dá ao homem. Somente através do shabath pode-se contemplar uma dimensão que em nenhum outro marco moral pode ser observada.

Em Êxodo 20:8-11 lemos “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou”. O texto acima refere-se à redação do quarto mandamento. Numa leitura crítica encontramos a seguinte lógica: O cessar do labor humano no shabath está relacionado ao fato de que Deus cessou o labor. Olhado um pouco melhor, e considerando que o homem é imagem de Deus, concluímos que Deus terminou Sua obra, a da criação do mundo físico (céus, terra e mar) e, no caso do homem, o mandamento explicitamente cobra o cessar da obra do homem, a qual deve ser realizada no mesmo espaço de tempo que Deus utilizou para concluir Sua obra. Assim, o shabath deve ser um encontro entre as obras de Deus e as obras do homem. Porém, acrescentamos aqui as palavras de Cristo quando disse que “o sábado foi feito por causa do homem” (Marcos 2:27). Se a Terra foi criada para demonstração do funcionamento pleno da Lei de Deus, então o shabath é um domínio para demonstração do funcionamento da Lei em ambos comandos, o de Deus e o do homem. Sendo criado para o homem após o aparecimento do pecado, podemos entender que o shabath veio para evitar que o pecado contaminasse a imagem de Deus. Se o mandamento declara cessação da obra humana, há uma pergunta que não quer calar: Sendo o shabath o encontro entre as obras de Deus e as do homem, quais são as obras do homem?

O quarto mandamento diz o que deve cessar juntamente com o homem: todos os outros homens e os animais. O cessar do shabath inclui uma dimensão moral gigantesca; Deus construiu o mundo físico justo e ao homem cabe a construção do mundo social justo, porque o cessar do labor de todos determina justiça. Portanto, assim como a divindade de Deus está nas obras criadas, a divindade humana, ou seja, a justiça humana estará nas obras sociais. A transcendência humana que o faz ultrapassar as coisas sensíveis está na construção da sociedade justa. Em Gênesis 1:27-28 lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”.  Vemos que o homem criado à imagem de Deus e formando uma sociedade com a mulher deveria multiplicar o modelo social dado por Deus e deveria dominar toda criação fazendo-a sujeitar-se ao modelo social justo entregue, criando um ambiente de cooperação onde os princípios da lei estariam em vigência. Assim, no quarto mandamento ao homem é ordenada a construção de uma sociedade justa baseada no modelo do Gênesis e, no shabath, a obra humana deveria ser trazida diante de Deus. Por isso, em Êxodo 34:20 é comandada a ordem de não aparecer diante de Deus no shabath de mãos vazias.
Se o homem foi criado semelhante a Deus, as obras que faria nos seis dias seriam também semelhantes às de Deus. Assim poderia descansar, e no descanso contemplar Deus. Aperfeiçoaria a si mesmo construindo um mundo social que refletiria o caráter de Deus. Então, a pergunta agora é: como ocorre a construção do mundo social?

Para responde-la devemos tomar o capítulo 58 de Isaías. Ali o profeta é instado a clamar em alta voz e anunciar ao povo a sua transgressão. Para não tomar todo o capítulo, vejamos os versos 6-14 os quais esclarecem os protocolos para a referida construção: “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda.  Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam. E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar. Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, Então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse”.

Ellen White refere-se à construção do mundo social dizendo “Não posso deixar de ser demasiado veemente em insistir com todos os membros de nossas igrejas, todos quantos são verdadeiros missionários, todos quantos creem na terceira mensagem angélica, todos quantos desviam o pé de profanar o sábado, para considerarem a mensagem do capítulo cinquenta e oito de Isaías. A obra de beneficência recomendada nesse capítulo é a obra que Deus requer de Seu povo neste tempo. É uma obra indicada por Ele próprio. Não somos deixados em dúvida quanto ao lugar da mensagem e ao tempo de seu assinalado cumprimento, pois lemos: “E os que de ti procederem edificarão os lugares antigamente assolados; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar.” Isaías 58:12.

Isaías adverte que somente encontrar-se-á o deleite sabático se apresentarmos nossas obras sociais. Fomos criados para sermos recipientes contínuos e nesta condição devemos dar continuamente. Essa é a forma como a humanidade transcende e mostrar a sua divindade. É no shabath que o universo estuda sobre a justiça e o amor de Deus contemplando a Sua obra e as ações dos filhos de Deus.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O RELATÓRIO 2015 DA UNESCO SOBRE CIÊNCIA E TECNOLOGIA E O PAPEL DETERMINANTE DA PESQUISA CIENTÍFICA PARA PANAMAZÔNIA

A questão da cooperação científica na América do Sul não é assunto de monos-valia e deveria ser uma pauta tangível dos governos locais. Quando o assunto é Amazônia continental, vis-à-vis desenvolvimento sustentável, torna-se ainda mais premente a cooperação e deveria ser imperativa a discussão sobre como os nove países pretendem estabelecer políticas comuns para garantirem ganhos sem prejuízos ao patrimônio natural à disposição e nem às relações diplomáticas. Considerando que a panAmazônia abriga altíssima complexidade, quer seja do ponto de vista da política, geologia, biologia, etc., além de ser região fulcral às questões climáticas mundiais, é mister que decisões sobre desenvolvimento amazônico sejam respaldadas por conhecimento científico. Neste aspecto, o sistema educacional e a formação de cientistas deveria estar na essência das discussões e ser encarado como política continental.

A produção do conhecimento na América do Sul

Há números importantes sobre produção de conhecimento no contexto da América do Sul que, quando vistos no conjunto, mostram uma realidade não muito alvissareira. Entre os nove países amazônicos, o Brasil se destaca como liderança científica ratificada no relatório 2015 sobre Ciência da UNESCO. O número de pesquisadores doutores nas instituições brasileiras, em tempo integral, é de longe muito maior (138.653) do que aqueles nos demais países amazônicos, significando o dobro daquele que está em segundo lugar; também a quantidade de publicações demonstra a mesma proporção. Por outro lado, os países sul-americanos não agenciam boa conectividade e, consequentemente, a cooperação científica é quase inexistente, fato que adiciona complicadores para políticas comuns. A título de exemplo, as publicações científicas oriundas dos países amazônicos, têm como os principais coautores pesquisadores dos USA e Europa ocidental e quando ocorre parceria sul-americana, esta se posiciona em situação secundária (UNESCO, 2015). Tal situação pode ser explicada pela preferência estudantil ao buscar formação superior fora do domicílio. Os estudantes sul-americanos preferem as universidades nos USA e Europa ocidental em detrimento daquelas que estão na América do Sul (79.252 estudantes oriundos da PanAmazônia buscaram formação superior na Europa e nos USA em 2013 (UNESCO (2015))). Assim, logicamente as parcerias e colaborações vão ocorrer mais com os mestres respectivos e menos com colegas sul-americanos que podem ser desconhecidos para quem estudou em universidades americanas e europeias. Todavia, a cooperação científica na América do Sul e nomeadamente entre os países amazônicos carece de mais intensidade e amplitude, pois o conhecimento produzido intra América do Sul, se alcançar níveis de generalizações adequados, será mais adequado porque a verdade de chão é conhecida aos sul-americanos.

O relatório da Unesco (2015) mostra também que a distribuição dos pesquisadores sul americanos por setor (negócios; governo; educação superior) não está escalonada como nos países desenvolvidos. A grande maioria (60-70%) dos pesquisadores está no ensino superior; uma percentagem menor (variando entre 8 a 25%) está no setor negócios, significando que a produção de conhecimento não necessariamente visa empregabilidade no setor produtivo. No caso brasileiro, as áreas que dominam as publicações científicas são, em primeiro lugar as ciências médicas, vindo em seguida as ciências biológicas e, em terceiro lugar estão as publicações em agronomia. Se as publicações estão voltadas dominantemente para as áreas acima, claramente não haverá muita informação que esteja pronta para uso industrial, embora às áreas médica e agronômica dedicam-se muitos esforços em produzir conhecimentos aplicados.

Ainda no relatório da UNESCO (2015) ressaltam-se assimetrias em termos de citações, demonstrando a importância relativa do que é publicado. Em 2015 os artigos brasileiros foram citados 160.383 vezes, de acordo com o indexador Scopus, mas quando esses números são comparados com os dos USA (1.257.613) fica manifesto que há mais generalização nos resultados americanos, isto é, as conclusões derivadas das pesquisas americanas aplicam-se a um amplo conjunto de casos, daí as citações serem tão frequentes. Esses números também demonstram que a gerência científica brasileira é ainda incipiente, as instituições não constroem agendas de pesquisas com demandas claras. São os editais das agências de fomento que direcionam os resultados e não as instituições. A gerência científica nas instituições não está organizada de modo a dirigir os projetos para o atendimento dos seus objetivos primários, e deste modo, os editais gerenciam. Como consequência, os resultados são fragmentados não permitindo que a sequência concatenada de resultados alcance níveis de generalidade significativos. Tudo isso deixa à amostra que o investimento em C, T & I não rende informações consentâneas com a demanda científico-social para inovações, ou seja, os 2,57% que correspondem à contribuição brasileira ao conhecimento científico mundial representam pouco quanto à aplicabilidade.

Conhecimento transformado em economia

O raciocínio acima parece respaldado pelos números correspondentes às patentes. A América do Norte submeteu, em 2013, ao United States Patent and Trademark Office (USPTO) 145.741 patentes, correspondendo a 52% do total mundial, enquanto que a América Latina submeteu 829 no mesmo período, correspondendo a 0,3% do total mundial, e ao Brasil correspondeu 341 submissões, perfazendo 0,1% do total mundial. Os 2,57% das publicações científicas mundiais procedentes do Brasil resultaram em 0,1% das patentes mundiais, ou seja, os 59.479 artigos publicados em 2013 resultaram em 341 patentes. Pode-se ver que o investimento em ciência está retornando de forma inexpressiva em termos de inovações e economia.

No contexto acima, quando olhamos às regiões brasileiras, o Norte não representa motivo para investimentos em inovações, considerando que os dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial-INPI demonstram incipiência na solicitação de patentes (FIG.1).

FIGURA 1 - Patentes concedidas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), por residentes, por grandes regiões, 2000-2012 (Fonte: CNPq)






























































Esta situação parece estar conexa com o número de doutores no Brasil por grandes áreas de conhecimentos de acordo com a plataforma Lattes do CNPq. Por exemplo, segundo as estatísticas apresentadas pelo CNPq, há 34.136 doutores nas Ciências Humanas, mas somente 18.700 nas Engenharias. Para Amazônia há apenas 375 doutores em engenharia. Com este cenário muito claramente entende-se a razão da baixa solicitação de patentes.

A academia da região norte do Brasil não é agressiva no sentido de buscar maior representatividade na distribuição dos investimentos e não parece estar interessada em articular-se com as esferas de comando do estado brasileiro. A bancada política amazônica, em todos os níveis, parece não ter compreensão do quanto se poderia melhorar econômica e socialmente a Amazônia se conhecimento científico voltado à inovação pudesse ser gerado pelas Instituições de Ciência e Tecnologia-ICT regionais. O diálogo entre governo regional e academia ocorre, mas não reproduz os anseios do setor produtivo, uma vez que a academia quer colonizar a sociedade através de conhecimento eticamente neutro, ou seja, as pesquisas realizadas não respondem perguntas originadas nos gargalos tecnológicos das indústrias ou até mesmo voltadas às demandas sociais críticas, ou ainda respondem de forma tangencial às demandas paradigmáticas exigidas pela própria ciência. Essa situação tem como raiz a ausência de treinamento acadêmico para operar transdisciplinarmente, além da preocupação muito difusa com o retorno social do investimento público.

As agências nacionais de fomento para C, T & I atuam num ciclo vicioso que se mantém contra a região amazônica, o qual se nutre da lógica nefanda do baixo investimento por causa da pequena densidade de pesquisadores (6.098 doutores e 5.820 mestres, sendo que mestres não lideram financiamentos). No entanto, o número de pesquisadores nas instituições da região norte brasileira é, por exemplo, maior que os pesquisadores no sistema de C&T do Equador (2.735) e da Bolívia (1.646) e próximo do número de pesquisadores na Colômbia (7.702) (UNESCO Institute for Statistic, 2015). A título de esclarecimento, a quantidade de bolsas produtividade outorgadas pelo CNPq para os Estados do Amazonas e Pará corresponde a 1.898 bolsas, enquanto que para o Estado de São Paulo são liberadas 41.598 bolsas. É claro que não estamos advogando cotas para a região norte, mas a assimetria mostrada é perversa, considerando que o território amazônico brasileiro corresponde a 60% da pan-Amazônia e 45% do território brasileiro. Tal situação está a requerer ação estruturante para a pesquisa amazônica; treinamento aos pesquisadores para a construção de projetos que possam ser avaliados par e par com os demais projetos brasileiros. As FAP’s regionais deveriam considerar o financiamento de treinamentos para conferir maior agressividade ao sistema de C&T local. A formação de grupos de pesquisas interinstitucionais e programas regionais de pesquisas poderiam melhorar a atração de fomento.

A transição para economia verde

O grande diferencial entre a Amazônia e as demais regiões do mundo é a riqueza vegetal, animal e de microrganismos, além da riqueza mineral, todas ainda quase intocadas, mas que se devidamente conquistadas poderão ser o motor à transição da fronteira agropecuária à fronteira do capital natural, conforme Becker (2011).

Considerando a assimetria entre a região norte e as regiões brasileiras de maior densidade cognitiva; considerando que a Amazônia tornou-se um apreciável centro de interesses da ciência e tecnologia; considerando que a Amazônia é fator imprescindível na sustentação do planeta, sendo, por consequência, uma questão global; considerando que o desafio amazônico é uma questão de estado; considerando que o número de universitários amazônicos estudando fora é maior do que o número dos de fora estudando na Amazônia; considerando que o potencial amazônico para novos materiais, segurança alimentar, biotecnologia, engenharia da madeira, engenharia naval e principalmente economia verde está muita aquém das expectativas, sugere-se um debate aprofundado para definir políticas à construção de um ambiente robusto em ciência e tecnologia na Amazônia continental.

A necessidade de se superar um ambiente onde políticas públicas são construídas à margem da C, T & I, exige que sejam criados arranjos institucionais inovadores, redesenhando as composições em escalas locais, regionais, nacionais e internacionais. Há necessidade de pensar, conforme Becker (2011), uma C, T & I aberta aos horizontes das novas múltiplas territorialidades, conectividades e conexões locais-globais. Está-se falando de uma CT&I que se constrói e constitui em proximidade e vínculo com as inovações sociais em curso no contexto amazônico; tarefa estratégica para um novo planejamento territorial que se apoie sobre uma ampla aliança entre universidades, instituições de pesquisa e empresas, visando fortalecer vínculos comunicativos de mútuo aprendizado entre o lócus acadêmico regionalizado de reflexão, conhecimento, crítica e formação de competências e o lócus da inovação, difusão e empreendedorismo. Estamos falando da consolidação da base científica para utilização do potencial natural e socioeconômico regional de forma sustentável; promoção de sinergia explícita e dinâmica entre as instituições, de forma a compartilhar projetos e recursos humanos para o incremento da inovação e para agregar valor à biodiversidade, atendendo às demandas sociais crescentes.

As universidades, especificamente, e não apenas faculdades, são entes determinantes de crescimento socioeconômico. Sua influência modeladora transforma espaços e idealiza comportamentos. Nos espaços onde há presença de universidades sempre ocorre o fortalecimento da classe média, e por essa razão há progresso social. Em qualquer situação política onde há interesse desenvolvimentista, nada ocorrerá, nenhuma alteração positiva social haverá na ausência de universidades voltadas às demandas sociais. Assim, no ambiente amazônico, universidades são imprescindíveis.

No caso do Estado do Amazonas, ocorre absoluta concentração das universidades públicas e privadas em Manaus e, por essa razão, a concentração dos doutores (1.462) ocorre na capital. Logo, qualquer política visando desenvolvimento social deverá promover adensamento educacional no interior, descentralizando a academia.

Em setembro de 2000, os presidentes dos países sul americanos resolveram criar uma iniciativa para integrar o continente no tocante à infraestrutura (IIRSA). Objetivavam modernizar, desenvolver a infraestrutura para transporte, energia e telecomunicações. Foi colocado um prazo de 10 anos para a efetivação. Foram criados eixos de integração, sendo um deles denominado eixo do Amazonas, compreendendo as calhas dos rios Solimões e Amazonas, os principais redutos demográficos, mas incluindo as áreas amazônicas peruana, colombiana e equatoriana. Todavia, nada aconteceu. Particularmente na calha do rio Solimões, há concentrações populacionais na região de Tefé e Coari, bem como há concentrações na zona da fronteira oeste, ou seja, Tabatinga, Benjamin Constant. As áreas referidas poderiam albergar duas universidades estaduais voltadas às demandas locais. Além disso, na calha do rio Amazonas, na região de Itacoatiara e Parintins há outro polo demográfico suficiente para implantar outra universidade estadual. Assim, o Estado do Amazonas poderia manter, além da capital, três outras universidades estaduais com programas específicos de ensino e pesquisas voltados às demandas de cada microrregião, buscando a produção de conhecimentos e tecnologias apropriados ao seu desenvolvimento. Se tais universidades se consolidassem como centros importantes de estudos em biologia tropical, mineração e transporte, entre outros, haveria atração de massa crítica capaz de materializar o tão sonhado desenvolvimento sustentável, além de desenvolver uma classe média adequada para criar riqueza fora da cidade estado que é Manaus.

A criação de universidades estaduais robustas poderia ser vista como parte de uma estratégia para concretizar um programa específico para o desenvolvimento da Amazônia continental. Tal estratégia é fundamental, considerando que a posição da Amazônia brasileira é mais vulnerável do que a dos outros países, uma vez que, do ponto de vista do relevo, Colômbia, Peru, Bolívia e Equador possuem áreas amazônicas pré andinas, ou seja, estão altimetricamente mais elevadas, em consequência disso, qualquer mudança nas condições ambientais e/ou ecológicas nesses países afetaria dramaticamente a Amazônia brasileira. Assim, universidades regionais poderiam funcionar como fornecedoras de conhecimento científico suficiente para orientar politicas continentais de desenvolvimento.

A cooperação continental e a necessidade de lideranças

Políticas continentais exigem cooperações multilaterais. Estas ocasionam o incremento de expertise, melhor adequação de custos e investimentos, desembocando no compartilhamento de habilidades e aptidões, conhecimentos, ideias, equipamentos e resultados de pesquisa. Há na América do Sul pesquisas e tecnologias compatíveis com os padrões internacionais. Essa base facilita o debate sobre, por exemplo, mudanças globais, sustentabilidade energética e segurança alimentar e de saúde. Posto que o mundo globalizou a pesquisa, a criação de um programa de mobilidade sul-americano poderia ser parte da agenda político-científica continental, um facilitador para cooperação. Melhor seria se pudesse ser criada uma rede de universidades sul americanas que adviesse mobilidade aos cientistas, de modo a fazer surgir ambiente de cognição elevado. Tal iniciativa poderia ser capitaneada pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica - OTCA, como uma das consequências das discussões sobre o Observatório Amazônico, considerando que já existe a infraestrutura do Mercosul com alianças já firmadas no âmbito educacional, fato que fortaleceria a integração científica regional. A criação de um conselho Sul Americano de Universidades com missão específica para desenvolver estratégias comuns para educação superior, bem como a promoção de redes de centros de excelência através do continente provocaria a construção de um ambiente científico regional que poderia mudar a economia.

Se a infraestrutura em transporte, energia e telecomunicações é o objetivo estabelecido para a América do Sul pela IIRSA, então, será necessária a criação de um ambiente para que as engenharias fossem pujantes nas universidades, aliás, uma lacuna que necessita ser resolvida, já que o censo da educação superior de 2015 aponta números de cursos de engenharia muito aquém das demandas amazônicas. Em toda Amazônia há apenas um curso de engenharia naval; 8 cursos de engenharia elétrica; 3 cursos de engenharia de telecomunicações; 1 curso de engenharia de pesca. Esses números indicam que dificilmente se logrará infraestrutura adequada, o que consente perceber que a velocidade de apropriação da riqueza amazônica nunca atingirá o patamar necessário ao desenvolvimento sustentável. É necessário lembrar que está em andamento a União das Nações Sul Americanas (UNASUR), com sede em Quito, Equador, que traz como um dos seus objetivos a integração científica.

Os grandes gargalos regionais poderão ser resolvidos com o readequamento das universidades para lecionarem conhecimentos voltados à realidade regional com a produção de ciência compatível com a das universidades de pesquisa e com capacidade para dialogar com a setor produtivo. Ainda mais fundamental e emergente é a urgente elevação dos níveis educacionais relativos ao ensino fundamental e médio. Estes níveis educacionais têm índices muito abaixo da expectativa nacional e internacional. Mesmo que as universidades amazônicas se tornem centros catalisadores importantes, alunos malformados nos níveis iniciais de ensino não poderão aproveita-las.

A produção de ciência e inovação causará a criação de Núcleos de Inovações e Tecnologias (NIT) com alta fluência em proteção intelectual e transferência tecnológica.
A argúcia em perceber um ambiente como acima transformaria as cidades em núcleos de agregação de valor aos produtos regionais, além de sedes de atividades de pesquisa e desenvolvimento articuladas entre si. Na verdade, o que temos hoje é uma equação malfazeja. Por exemplo, a população estimada em 2016 para a calha do rio Solimões é de 443.697 habitantes. A população dessa região matriculada no ensino fundamental é de 24.341 (5,4%) habitantes. Aquela matriculada no ensino médio é de 15.260 (3,4%). Portanto, apenas 8,9% dos habitantes da calha do rio Solimões estão no sistema educacional, significando que para aqueles brasileiros, a aquisição de riqueza não necessariamente passa pela educação. Assim, tem-se um trabalho de conscientização sobre a importância da educação para a modificação da situação socioeconômica.

Se for realizado um algebrismo semelhante ao anterior na esfera da academia veremos a lacuna existente no tocante à liderança. Vejamos, os bolsistas de produtividade no Brasil (docentes que se destacam na produção do conhecimento científico) somam 120.268. A região norte possui 2.082 bolsistas produtividade os quais correspondem a 1,7% do total brasileiro. Há na região norte 6.899 docentes doutores, destes apenas 30% são detentores de bolsas produtividade. Os números advertem baixa liderança regional.

Com um pouco de esforço, seria possível reverter este quadro, pois há pontos fortes que não são triviais no sistema de C&T amazônico. Há um conjunto relevante de Instituições Científica e tecnológias (ICT), Instituições de Ensino Superior (IES) e Institutos de Tecnologia que possuem importância regional, nacional e internacional. Algumas IES apresentam boa capilaridade regional, mas há IES privadas também, além de ICTs privadas que podem ser demandadas para atender a diversidade temática regional. Há avanço na estruturação de parques tecnológicos e incubadoras tecnológicas. Também tem sido intensa a presença das Fundações de Ampara à Pesquisas (FAPs) regionais as quais, juntamente com as Secretarias de Ciência e Tecnologia estaduais, têm alavancado o fomento à produção científica.

Tal ambiente favorece a criação de redes de centros de pesquisas visando a excelência, a organização científica, de forma a ciar o trinômio Estado, Academia e Setor Privado, acrescendo coerência às atividades de pesquisas e relacionamento dos vários atores científicos regionais. Muitos problemas de pesquisa básica e aplicada necessitam de massa crítica, de financiamento, além da combinação e complementariedade da expertise em vários domínios. Portanto, mapear os grupos de excelência em pesquisas com intuito de formação de redes pode significar avanço, dadas as condições amazônicas. Redes poderiam ser motivação para buscar níveis mais altos de desempenho, mudando a realidade cognitiva e física com a junção de intelectos e equipamentos.

A promoção da excelência em pesquisa fará emergir resultados que poderão ser apropriados pela indústria, e nesta esteira se poderá aumentar a capacidade econômica e de mercado com a geração de novos produtos, tornando a Amazônia competitiva e atrativa para novas empresas.  Porém, faz-se necessário perenizar os financiamentos e incrementar e fidelizar os recursos humanos. Há necessidade de adicionar ao financiamento estatal o recurso do setor privado.

Considerando a condição sul americana quanto aos recursos para C&T, torna-se imperioso o esforço coletivo à criação de facilidades bilaterais ou multilaterais para organizar programas transnacionais de suporte continental à infraestrutura de pesquisa. A ideia é a criação de laboratórios para uso da comunidade científica sul americana. O compartilhamento de infraestrutura diminuirá gastos com equipamentos e manutenção, além de maximizar a utilização dos equipamentos. Laboratórios de uso compartilhado facilitarão a substituição de equipamentos que ficam obsoletos com rapidez, como é o caso de equipamentos para química, modificando a forma de fomento atual que investe em equipamentos individuais, os quais, na maioria dos casos, não são utilizados em sua capacidade plena, o que força a diminuição da vida útil dos equipamentos e pulveriza recursos financeiros. Por outro lado, hoje há na Amazônia laboratórios com investimentos na ordem de milhares de Dólares, cujos pesquisadores lideres já estão em vias de aposentadoria. Por causa da não contratação de novos pesquisadores, os laboratórios referidos poderão fechar a curto prazo, provocando descontinuidade e perda de investimentos. A pergunta que deve ser colocada é: qual será o futuro da infraestrutura já pronta? Entendemos que a montagem de estruturas laboratoriais de uso compartilhado poderia resolver a questão, pois poderá absorver equipamentos nas condições acima, mas exigirá novo arcabouço legal internacional.

Uma das deficiências na América do Sul é a disponibilidade de bancos de dados quer para pesquisas quer para administrar C&T. A comunicabilidade continental está aquém do potencial atual das telecomunicações, um problema crítico que perturba a interação regional. O Brasil detém infraestrutura de comunicações muito superior aos demais países sul americanos e, nesta condição, faz uso de bancos de dados que não estão disponíveis ao continente. Um exemplo é o Portal de Periódicos CAPES, uma ferramenta de pesquisa bibliográfica muito avançada que, se disponibilizada, poderia facilitar o trabalho em coautorias no continente. Porém, há necessidade de bancos de dados para fauna, flora e microrganismos, até mesmo banco de dados para moléculas. Também não há periódicos científicos internacionais com fatores de impacto significativos, que discutam problemas e possibilitem a divulgação de resultados compatíveis com as expectativas mundiais.

No caso da Amazônia continental, é urgente a formulação de programas de pesquisa coordenados de modo a evitar a fragmentação de esforços e de fomentos. Tais programas poderiam garantir a reciprocidade de informações sobre objetivos e condições de elegibilidade e participação que poderia incluir países vizinhos.

Aumentar a cooperação entre as FAPs e agências de fomento regionais para olharem os problemas comuns (financiamento, integração de pesquisadores, diálogo com outras regiões e países), buscando a formação de uma rede que possa discutir o papel das FAPs no contexto de C&T regional e suas relações recíprocas. A prioridade deverá ser o estabelecimento de condições para consulta política entre as FAPs, visando à construção de imagem de coerência da C&T regional. Além disso, poder-se-ia pensar em sistema de referência técnica e científica para implementação de políticas, ou seja, desenvolvimento de pesquisas para embasar decisões em face de problemas e situações emergenciais, bem como harmonização de procedimentos, métodos e comparação de resultados.

Um ambiente de compartilhamento pressupõe um programa científico comum consentido e mobilidade para treinar pesquisadores e técnicos visando o desenvolvimento harmônico do continente. A ciência é um formidável drive para segurança e para o desenvolvimento sustentável.

REFERÊNCIAS 

Becker, B. K. (2011). Inovações Institucionais para Viabilizar Ciência, Tecnologia e Inovação como Vetores de Transformação do Caminho Amazônico de Desenvolvimento. Nota técnica. Laboratório de Gestão do Território. Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 61pp

Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento da Amazônia Legal. Brasília, DF: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2013.


UNESCO 2015. UNESCO Science Report: towards 2030. Paris. 743 pp