quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O RELATÓRIO 2015 DA UNESCO SOBRE CIÊNCIA E TECNOLOGIA E O PAPEL DETERMINANTE DA PESQUISA CIENTÍFICA PARA PANAMAZÔNIA

A questão da cooperação científica na América do Sul não é assunto de monos-valia e deveria ser uma pauta tangível dos governos locais. Quando o assunto é Amazônia continental, vis-à-vis desenvolvimento sustentável, torna-se ainda mais premente a cooperação e deveria ser imperativa a discussão sobre como os nove países pretendem estabelecer políticas comuns para garantirem ganhos sem prejuízos ao patrimônio natural à disposição e nem às relações diplomáticas. Considerando que a panAmazônia abriga altíssima complexidade, quer seja do ponto de vista da política, geologia, biologia, etc., além de ser região fulcral às questões climáticas mundiais, é mister que decisões sobre desenvolvimento amazônico sejam respaldadas por conhecimento científico. Neste aspecto, o sistema educacional e a formação de cientistas deveria estar na essência das discussões e ser encarado como política continental.

A produção do conhecimento na América do Sul

Há números importantes sobre produção de conhecimento no contexto da América do Sul que, quando vistos no conjunto, mostram uma realidade não muito alvissareira. Entre os nove países amazônicos, o Brasil se destaca como liderança científica ratificada no relatório 2015 sobre Ciência da UNESCO. O número de pesquisadores doutores nas instituições brasileiras, em tempo integral, é de longe muito maior (138.653) do que aqueles nos demais países amazônicos, significando o dobro daquele que está em segundo lugar; também a quantidade de publicações demonstra a mesma proporção. Por outro lado, os países sul-americanos não agenciam boa conectividade e, consequentemente, a cooperação científica é quase inexistente, fato que adiciona complicadores para políticas comuns. A título de exemplo, as publicações científicas oriundas dos países amazônicos, têm como os principais coautores pesquisadores dos USA e Europa ocidental e quando ocorre parceria sul-americana, esta se posiciona em situação secundária (UNESCO, 2015). Tal situação pode ser explicada pela preferência estudantil ao buscar formação superior fora do domicílio. Os estudantes sul-americanos preferem as universidades nos USA e Europa ocidental em detrimento daquelas que estão na América do Sul (79.252 estudantes oriundos da PanAmazônia buscaram formação superior na Europa e nos USA em 2013 (UNESCO (2015))). Assim, logicamente as parcerias e colaborações vão ocorrer mais com os mestres respectivos e menos com colegas sul-americanos que podem ser desconhecidos para quem estudou em universidades americanas e europeias. Todavia, a cooperação científica na América do Sul e nomeadamente entre os países amazônicos carece de mais intensidade e amplitude, pois o conhecimento produzido intra América do Sul, se alcançar níveis de generalizações adequados, será mais adequado porque a verdade de chão é conhecida aos sul-americanos.

O relatório da Unesco (2015) mostra também que a distribuição dos pesquisadores sul americanos por setor (negócios; governo; educação superior) não está escalonada como nos países desenvolvidos. A grande maioria (60-70%) dos pesquisadores está no ensino superior; uma percentagem menor (variando entre 8 a 25%) está no setor negócios, significando que a produção de conhecimento não necessariamente visa empregabilidade no setor produtivo. No caso brasileiro, as áreas que dominam as publicações científicas são, em primeiro lugar as ciências médicas, vindo em seguida as ciências biológicas e, em terceiro lugar estão as publicações em agronomia. Se as publicações estão voltadas dominantemente para as áreas acima, claramente não haverá muita informação que esteja pronta para uso industrial, embora às áreas médica e agronômica dedicam-se muitos esforços em produzir conhecimentos aplicados.

Ainda no relatório da UNESCO (2015) ressaltam-se assimetrias em termos de citações, demonstrando a importância relativa do que é publicado. Em 2015 os artigos brasileiros foram citados 160.383 vezes, de acordo com o indexador Scopus, mas quando esses números são comparados com os dos USA (1.257.613) fica manifesto que há mais generalização nos resultados americanos, isto é, as conclusões derivadas das pesquisas americanas aplicam-se a um amplo conjunto de casos, daí as citações serem tão frequentes. Esses números também demonstram que a gerência científica brasileira é ainda incipiente, as instituições não constroem agendas de pesquisas com demandas claras. São os editais das agências de fomento que direcionam os resultados e não as instituições. A gerência científica nas instituições não está organizada de modo a dirigir os projetos para o atendimento dos seus objetivos primários, e deste modo, os editais gerenciam. Como consequência, os resultados são fragmentados não permitindo que a sequência concatenada de resultados alcance níveis de generalidade significativos. Tudo isso deixa à amostra que o investimento em C, T & I não rende informações consentâneas com a demanda científico-social para inovações, ou seja, os 2,57% que correspondem à contribuição brasileira ao conhecimento científico mundial representam pouco quanto à aplicabilidade.

Conhecimento transformado em economia

O raciocínio acima parece respaldado pelos números correspondentes às patentes. A América do Norte submeteu, em 2013, ao United States Patent and Trademark Office (USPTO) 145.741 patentes, correspondendo a 52% do total mundial, enquanto que a América Latina submeteu 829 no mesmo período, correspondendo a 0,3% do total mundial, e ao Brasil correspondeu 341 submissões, perfazendo 0,1% do total mundial. Os 2,57% das publicações científicas mundiais procedentes do Brasil resultaram em 0,1% das patentes mundiais, ou seja, os 59.479 artigos publicados em 2013 resultaram em 341 patentes. Pode-se ver que o investimento em ciência está retornando de forma inexpressiva em termos de inovações e economia.

No contexto acima, quando olhamos às regiões brasileiras, o Norte não representa motivo para investimentos em inovações, considerando que os dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial-INPI demonstram incipiência na solicitação de patentes (FIG.1).

FIGURA 1 - Patentes concedidas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), por residentes, por grandes regiões, 2000-2012 (Fonte: CNPq)






























































Esta situação parece estar conexa com o número de doutores no Brasil por grandes áreas de conhecimentos de acordo com a plataforma Lattes do CNPq. Por exemplo, segundo as estatísticas apresentadas pelo CNPq, há 34.136 doutores nas Ciências Humanas, mas somente 18.700 nas Engenharias. Para Amazônia há apenas 375 doutores em engenharia. Com este cenário muito claramente entende-se a razão da baixa solicitação de patentes.

A academia da região norte do Brasil não é agressiva no sentido de buscar maior representatividade na distribuição dos investimentos e não parece estar interessada em articular-se com as esferas de comando do estado brasileiro. A bancada política amazônica, em todos os níveis, parece não ter compreensão do quanto se poderia melhorar econômica e socialmente a Amazônia se conhecimento científico voltado à inovação pudesse ser gerado pelas Instituições de Ciência e Tecnologia-ICT regionais. O diálogo entre governo regional e academia ocorre, mas não reproduz os anseios do setor produtivo, uma vez que a academia quer colonizar a sociedade através de conhecimento eticamente neutro, ou seja, as pesquisas realizadas não respondem perguntas originadas nos gargalos tecnológicos das indústrias ou até mesmo voltadas às demandas sociais críticas, ou ainda respondem de forma tangencial às demandas paradigmáticas exigidas pela própria ciência. Essa situação tem como raiz a ausência de treinamento acadêmico para operar transdisciplinarmente, além da preocupação muito difusa com o retorno social do investimento público.

As agências nacionais de fomento para C, T & I atuam num ciclo vicioso que se mantém contra a região amazônica, o qual se nutre da lógica nefanda do baixo investimento por causa da pequena densidade de pesquisadores (6.098 doutores e 5.820 mestres, sendo que mestres não lideram financiamentos). No entanto, o número de pesquisadores nas instituições da região norte brasileira é, por exemplo, maior que os pesquisadores no sistema de C&T do Equador (2.735) e da Bolívia (1.646) e próximo do número de pesquisadores na Colômbia (7.702) (UNESCO Institute for Statistic, 2015). A título de esclarecimento, a quantidade de bolsas produtividade outorgadas pelo CNPq para os Estados do Amazonas e Pará corresponde a 1.898 bolsas, enquanto que para o Estado de São Paulo são liberadas 41.598 bolsas. É claro que não estamos advogando cotas para a região norte, mas a assimetria mostrada é perversa, considerando que o território amazônico brasileiro corresponde a 60% da pan-Amazônia e 45% do território brasileiro. Tal situação está a requerer ação estruturante para a pesquisa amazônica; treinamento aos pesquisadores para a construção de projetos que possam ser avaliados par e par com os demais projetos brasileiros. As FAP’s regionais deveriam considerar o financiamento de treinamentos para conferir maior agressividade ao sistema de C&T local. A formação de grupos de pesquisas interinstitucionais e programas regionais de pesquisas poderiam melhorar a atração de fomento.

A transição para economia verde

O grande diferencial entre a Amazônia e as demais regiões do mundo é a riqueza vegetal, animal e de microrganismos, além da riqueza mineral, todas ainda quase intocadas, mas que se devidamente conquistadas poderão ser o motor à transição da fronteira agropecuária à fronteira do capital natural, conforme Becker (2011).

Considerando a assimetria entre a região norte e as regiões brasileiras de maior densidade cognitiva; considerando que a Amazônia tornou-se um apreciável centro de interesses da ciência e tecnologia; considerando que a Amazônia é fator imprescindível na sustentação do planeta, sendo, por consequência, uma questão global; considerando que o desafio amazônico é uma questão de estado; considerando que o número de universitários amazônicos estudando fora é maior do que o número dos de fora estudando na Amazônia; considerando que o potencial amazônico para novos materiais, segurança alimentar, biotecnologia, engenharia da madeira, engenharia naval e principalmente economia verde está muita aquém das expectativas, sugere-se um debate aprofundado para definir políticas à construção de um ambiente robusto em ciência e tecnologia na Amazônia continental.

A necessidade de se superar um ambiente onde políticas públicas são construídas à margem da C, T & I, exige que sejam criados arranjos institucionais inovadores, redesenhando as composições em escalas locais, regionais, nacionais e internacionais. Há necessidade de pensar, conforme Becker (2011), uma C, T & I aberta aos horizontes das novas múltiplas territorialidades, conectividades e conexões locais-globais. Está-se falando de uma CT&I que se constrói e constitui em proximidade e vínculo com as inovações sociais em curso no contexto amazônico; tarefa estratégica para um novo planejamento territorial que se apoie sobre uma ampla aliança entre universidades, instituições de pesquisa e empresas, visando fortalecer vínculos comunicativos de mútuo aprendizado entre o lócus acadêmico regionalizado de reflexão, conhecimento, crítica e formação de competências e o lócus da inovação, difusão e empreendedorismo. Estamos falando da consolidação da base científica para utilização do potencial natural e socioeconômico regional de forma sustentável; promoção de sinergia explícita e dinâmica entre as instituições, de forma a compartilhar projetos e recursos humanos para o incremento da inovação e para agregar valor à biodiversidade, atendendo às demandas sociais crescentes.

As universidades, especificamente, e não apenas faculdades, são entes determinantes de crescimento socioeconômico. Sua influência modeladora transforma espaços e idealiza comportamentos. Nos espaços onde há presença de universidades sempre ocorre o fortalecimento da classe média, e por essa razão há progresso social. Em qualquer situação política onde há interesse desenvolvimentista, nada ocorrerá, nenhuma alteração positiva social haverá na ausência de universidades voltadas às demandas sociais. Assim, no ambiente amazônico, universidades são imprescindíveis.

No caso do Estado do Amazonas, ocorre absoluta concentração das universidades públicas e privadas em Manaus e, por essa razão, a concentração dos doutores (1.462) ocorre na capital. Logo, qualquer política visando desenvolvimento social deverá promover adensamento educacional no interior, descentralizando a academia.

Em setembro de 2000, os presidentes dos países sul americanos resolveram criar uma iniciativa para integrar o continente no tocante à infraestrutura (IIRSA). Objetivavam modernizar, desenvolver a infraestrutura para transporte, energia e telecomunicações. Foi colocado um prazo de 10 anos para a efetivação. Foram criados eixos de integração, sendo um deles denominado eixo do Amazonas, compreendendo as calhas dos rios Solimões e Amazonas, os principais redutos demográficos, mas incluindo as áreas amazônicas peruana, colombiana e equatoriana. Todavia, nada aconteceu. Particularmente na calha do rio Solimões, há concentrações populacionais na região de Tefé e Coari, bem como há concentrações na zona da fronteira oeste, ou seja, Tabatinga, Benjamin Constant. As áreas referidas poderiam albergar duas universidades estaduais voltadas às demandas locais. Além disso, na calha do rio Amazonas, na região de Itacoatiara e Parintins há outro polo demográfico suficiente para implantar outra universidade estadual. Assim, o Estado do Amazonas poderia manter, além da capital, três outras universidades estaduais com programas específicos de ensino e pesquisas voltados às demandas de cada microrregião, buscando a produção de conhecimentos e tecnologias apropriados ao seu desenvolvimento. Se tais universidades se consolidassem como centros importantes de estudos em biologia tropical, mineração e transporte, entre outros, haveria atração de massa crítica capaz de materializar o tão sonhado desenvolvimento sustentável, além de desenvolver uma classe média adequada para criar riqueza fora da cidade estado que é Manaus.

A criação de universidades estaduais robustas poderia ser vista como parte de uma estratégia para concretizar um programa específico para o desenvolvimento da Amazônia continental. Tal estratégia é fundamental, considerando que a posição da Amazônia brasileira é mais vulnerável do que a dos outros países, uma vez que, do ponto de vista do relevo, Colômbia, Peru, Bolívia e Equador possuem áreas amazônicas pré andinas, ou seja, estão altimetricamente mais elevadas, em consequência disso, qualquer mudança nas condições ambientais e/ou ecológicas nesses países afetaria dramaticamente a Amazônia brasileira. Assim, universidades regionais poderiam funcionar como fornecedoras de conhecimento científico suficiente para orientar politicas continentais de desenvolvimento.

A cooperação continental e a necessidade de lideranças

Políticas continentais exigem cooperações multilaterais. Estas ocasionam o incremento de expertise, melhor adequação de custos e investimentos, desembocando no compartilhamento de habilidades e aptidões, conhecimentos, ideias, equipamentos e resultados de pesquisa. Há na América do Sul pesquisas e tecnologias compatíveis com os padrões internacionais. Essa base facilita o debate sobre, por exemplo, mudanças globais, sustentabilidade energética e segurança alimentar e de saúde. Posto que o mundo globalizou a pesquisa, a criação de um programa de mobilidade sul-americano poderia ser parte da agenda político-científica continental, um facilitador para cooperação. Melhor seria se pudesse ser criada uma rede de universidades sul americanas que adviesse mobilidade aos cientistas, de modo a fazer surgir ambiente de cognição elevado. Tal iniciativa poderia ser capitaneada pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica - OTCA, como uma das consequências das discussões sobre o Observatório Amazônico, considerando que já existe a infraestrutura do Mercosul com alianças já firmadas no âmbito educacional, fato que fortaleceria a integração científica regional. A criação de um conselho Sul Americano de Universidades com missão específica para desenvolver estratégias comuns para educação superior, bem como a promoção de redes de centros de excelência através do continente provocaria a construção de um ambiente científico regional que poderia mudar a economia.

Se a infraestrutura em transporte, energia e telecomunicações é o objetivo estabelecido para a América do Sul pela IIRSA, então, será necessária a criação de um ambiente para que as engenharias fossem pujantes nas universidades, aliás, uma lacuna que necessita ser resolvida, já que o censo da educação superior de 2015 aponta números de cursos de engenharia muito aquém das demandas amazônicas. Em toda Amazônia há apenas um curso de engenharia naval; 8 cursos de engenharia elétrica; 3 cursos de engenharia de telecomunicações; 1 curso de engenharia de pesca. Esses números indicam que dificilmente se logrará infraestrutura adequada, o que consente perceber que a velocidade de apropriação da riqueza amazônica nunca atingirá o patamar necessário ao desenvolvimento sustentável. É necessário lembrar que está em andamento a União das Nações Sul Americanas (UNASUR), com sede em Quito, Equador, que traz como um dos seus objetivos a integração científica.

Os grandes gargalos regionais poderão ser resolvidos com o readequamento das universidades para lecionarem conhecimentos voltados à realidade regional com a produção de ciência compatível com a das universidades de pesquisa e com capacidade para dialogar com a setor produtivo. Ainda mais fundamental e emergente é a urgente elevação dos níveis educacionais relativos ao ensino fundamental e médio. Estes níveis educacionais têm índices muito abaixo da expectativa nacional e internacional. Mesmo que as universidades amazônicas se tornem centros catalisadores importantes, alunos malformados nos níveis iniciais de ensino não poderão aproveita-las.

A produção de ciência e inovação causará a criação de Núcleos de Inovações e Tecnologias (NIT) com alta fluência em proteção intelectual e transferência tecnológica.
A argúcia em perceber um ambiente como acima transformaria as cidades em núcleos de agregação de valor aos produtos regionais, além de sedes de atividades de pesquisa e desenvolvimento articuladas entre si. Na verdade, o que temos hoje é uma equação malfazeja. Por exemplo, a população estimada em 2016 para a calha do rio Solimões é de 443.697 habitantes. A população dessa região matriculada no ensino fundamental é de 24.341 (5,4%) habitantes. Aquela matriculada no ensino médio é de 15.260 (3,4%). Portanto, apenas 8,9% dos habitantes da calha do rio Solimões estão no sistema educacional, significando que para aqueles brasileiros, a aquisição de riqueza não necessariamente passa pela educação. Assim, tem-se um trabalho de conscientização sobre a importância da educação para a modificação da situação socioeconômica.

Se for realizado um algebrismo semelhante ao anterior na esfera da academia veremos a lacuna existente no tocante à liderança. Vejamos, os bolsistas de produtividade no Brasil (docentes que se destacam na produção do conhecimento científico) somam 120.268. A região norte possui 2.082 bolsistas produtividade os quais correspondem a 1,7% do total brasileiro. Há na região norte 6.899 docentes doutores, destes apenas 30% são detentores de bolsas produtividade. Os números advertem baixa liderança regional.

Com um pouco de esforço, seria possível reverter este quadro, pois há pontos fortes que não são triviais no sistema de C&T amazônico. Há um conjunto relevante de Instituições Científica e tecnológias (ICT), Instituições de Ensino Superior (IES) e Institutos de Tecnologia que possuem importância regional, nacional e internacional. Algumas IES apresentam boa capilaridade regional, mas há IES privadas também, além de ICTs privadas que podem ser demandadas para atender a diversidade temática regional. Há avanço na estruturação de parques tecnológicos e incubadoras tecnológicas. Também tem sido intensa a presença das Fundações de Ampara à Pesquisas (FAPs) regionais as quais, juntamente com as Secretarias de Ciência e Tecnologia estaduais, têm alavancado o fomento à produção científica.

Tal ambiente favorece a criação de redes de centros de pesquisas visando a excelência, a organização científica, de forma a ciar o trinômio Estado, Academia e Setor Privado, acrescendo coerência às atividades de pesquisas e relacionamento dos vários atores científicos regionais. Muitos problemas de pesquisa básica e aplicada necessitam de massa crítica, de financiamento, além da combinação e complementariedade da expertise em vários domínios. Portanto, mapear os grupos de excelência em pesquisas com intuito de formação de redes pode significar avanço, dadas as condições amazônicas. Redes poderiam ser motivação para buscar níveis mais altos de desempenho, mudando a realidade cognitiva e física com a junção de intelectos e equipamentos.

A promoção da excelência em pesquisa fará emergir resultados que poderão ser apropriados pela indústria, e nesta esteira se poderá aumentar a capacidade econômica e de mercado com a geração de novos produtos, tornando a Amazônia competitiva e atrativa para novas empresas.  Porém, faz-se necessário perenizar os financiamentos e incrementar e fidelizar os recursos humanos. Há necessidade de adicionar ao financiamento estatal o recurso do setor privado.

Considerando a condição sul americana quanto aos recursos para C&T, torna-se imperioso o esforço coletivo à criação de facilidades bilaterais ou multilaterais para organizar programas transnacionais de suporte continental à infraestrutura de pesquisa. A ideia é a criação de laboratórios para uso da comunidade científica sul americana. O compartilhamento de infraestrutura diminuirá gastos com equipamentos e manutenção, além de maximizar a utilização dos equipamentos. Laboratórios de uso compartilhado facilitarão a substituição de equipamentos que ficam obsoletos com rapidez, como é o caso de equipamentos para química, modificando a forma de fomento atual que investe em equipamentos individuais, os quais, na maioria dos casos, não são utilizados em sua capacidade plena, o que força a diminuição da vida útil dos equipamentos e pulveriza recursos financeiros. Por outro lado, hoje há na Amazônia laboratórios com investimentos na ordem de milhares de Dólares, cujos pesquisadores lideres já estão em vias de aposentadoria. Por causa da não contratação de novos pesquisadores, os laboratórios referidos poderão fechar a curto prazo, provocando descontinuidade e perda de investimentos. A pergunta que deve ser colocada é: qual será o futuro da infraestrutura já pronta? Entendemos que a montagem de estruturas laboratoriais de uso compartilhado poderia resolver a questão, pois poderá absorver equipamentos nas condições acima, mas exigirá novo arcabouço legal internacional.

Uma das deficiências na América do Sul é a disponibilidade de bancos de dados quer para pesquisas quer para administrar C&T. A comunicabilidade continental está aquém do potencial atual das telecomunicações, um problema crítico que perturba a interação regional. O Brasil detém infraestrutura de comunicações muito superior aos demais países sul americanos e, nesta condição, faz uso de bancos de dados que não estão disponíveis ao continente. Um exemplo é o Portal de Periódicos CAPES, uma ferramenta de pesquisa bibliográfica muito avançada que, se disponibilizada, poderia facilitar o trabalho em coautorias no continente. Porém, há necessidade de bancos de dados para fauna, flora e microrganismos, até mesmo banco de dados para moléculas. Também não há periódicos científicos internacionais com fatores de impacto significativos, que discutam problemas e possibilitem a divulgação de resultados compatíveis com as expectativas mundiais.

No caso da Amazônia continental, é urgente a formulação de programas de pesquisa coordenados de modo a evitar a fragmentação de esforços e de fomentos. Tais programas poderiam garantir a reciprocidade de informações sobre objetivos e condições de elegibilidade e participação que poderia incluir países vizinhos.

Aumentar a cooperação entre as FAPs e agências de fomento regionais para olharem os problemas comuns (financiamento, integração de pesquisadores, diálogo com outras regiões e países), buscando a formação de uma rede que possa discutir o papel das FAPs no contexto de C&T regional e suas relações recíprocas. A prioridade deverá ser o estabelecimento de condições para consulta política entre as FAPs, visando à construção de imagem de coerência da C&T regional. Além disso, poder-se-ia pensar em sistema de referência técnica e científica para implementação de políticas, ou seja, desenvolvimento de pesquisas para embasar decisões em face de problemas e situações emergenciais, bem como harmonização de procedimentos, métodos e comparação de resultados.

Um ambiente de compartilhamento pressupõe um programa científico comum consentido e mobilidade para treinar pesquisadores e técnicos visando o desenvolvimento harmônico do continente. A ciência é um formidável drive para segurança e para o desenvolvimento sustentável.

REFERÊNCIAS 

Becker, B. K. (2011). Inovações Institucionais para Viabilizar Ciência, Tecnologia e Inovação como Vetores de Transformação do Caminho Amazônico de Desenvolvimento. Nota técnica. Laboratório de Gestão do Território. Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 61pp

Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento da Amazônia Legal. Brasília, DF: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2013.


UNESCO 2015. UNESCO Science Report: towards 2030. Paris. 743 pp

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Colocando lembretes

Vamos começar lendo o livro de Números: (capítulo 15:37-40) “E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Que nas bordas das suas vestes façam franjas pelas suas gerações; e nas franjas das bordas ponham um cordão de azul. E as franjas vos serão para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR, e os cumprais; e não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo. Para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sejais a vosso Deus.

Muitos de nós já vivemos situações nas quais agimos abaixo das normas, somente porque ninguém nos está observando. Este parece ser nosso comportamento natural. Fazer o que não está totalmente correto porque estamos sós. Porém, se há a possibilidade de sermos descobertos, agimos de modo diferente e nosso comportamento torna-se moralmente correto.

O Rabino Jonathan Sacks, em seu livro “Ensaios sobre ética” apresenta alguns experimentos realizados para verificar se o anonimato fazia alguma diferença no comportamento social de jovens. Por exemplo, foram distribuídos aleatoriamente a um grupo de estudantes óculos de sol e óculos claros, informando-os que estavam testando uma nova linha de produtos. Também, em uma tarefa aparentemente não relacionada, foram dados seis dólares e a chance de compartilhar a quantia com um estranho. Os jovens que usavam óculos claros deram em média 2,71 dólares, enquanto que os que usavam óculos escuros deram em média 1,81 dólares. O simples fato de estar usando óculos de sol, e assim, sentido que não eram reconhecidos, reduziu a generosidade. Em outro experimento estimularam aos estudantes colarem em provas, colocando um grupo numa sala mal iluminada e outro grupo em sala com iluminação adequada. Os que estavam na sala mal iluminada tinham mais propensão para colar do que os da sala mais iluminada. Isto parece indicar que quanto mais nos sentimos observados, melhores nos tornamos em generosidade e moralmente. Pessoas observadas são pessoas melhores.

Parece paradoxal que não vivamos à altura daquilo que cremos. O apostolo Paulo levantou essa questão quando exclamou “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” Romanos 7:14-24.

O Dr. Deepak Malhotra da Harvard Business School, fez um experimento para ver a disponibilidade de cristãos atenderem apelos de caridade. A resposta era 300% maior quando o apelo ocorria nos domingos e não em outro dia da semana. Claramente os participantes não mudavam de idéia sobre a crença religiosa ou a importância das doações entre dias úteis e domingos. Mas eles estavam mais propensos à generosidade nos domingos porque pensavam mais em Deus do que nos outros dias. Isto parece indicar que o que faz a diferença em nosso comportamento é menos o que cremos e mais o que somos lembrados, ainda que inconscientemente, daquilo que cremos.

Eis a razão para Deus recomendar aos israelitas o uso de franjas na roupa para lembrar os mandamentos. Nós temos um senso moral. Nós sabemos que certas coisas são erradas, mas nós temos desejos conflitantes. Somos tentados a fazer o que sabemos que não deveríamos, e frequentemente nos rendemos à tentação. No domínio moral, isto é o que a Bíblia quer significar quando diz: “E as franjas vos serão para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR, e os cumprais; e não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo” (Números 15:39). Assim, montar lembretes é uma tarefa importante, pois já advertia o Profeta Jeremias quando disse: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9).

Se estar sendo lembrado faz a diferença no campo moral, então faz todo sentido a recomendação para não estarmos expostos aos lembretes morais que são enviados pelo cinema, teatro e a ópera. Nos locais onde são exibidos filmes e peças de teatro (ópera é uma peça de teatro musicada) são enviados lembretes sobre aspectos morais que, em muitos casos, não estão em acordo com os ensinamentos bíblicos.

As tramas sociais que são discutidas nas salas dos cinemas e dos teatros mostram comportamentos humanos não orientados pela moral dada por Deus no Sinai. Porém, mesmo que não frequentemos as salas de espetáculos, estamos expostos diariamente aos mesmos lembretes, por força da influências das mídias modernas. Ter em casa uma TV é estar exposto brutalmente a lembretes que são do comportamento humano tal qual é, mas o Profeta advertiu que o coração humano é enganoso. Quanto mais assistirmos a filmes ou ficar expostos aos folhetins diários, às séries hollywoodianas, às peças teatrais, mais seremos lembrados do comportamento do homem no mundo e não das coisas do céu. Portanto, estaremos envolvidos em ambiente cognitivo adverso e, consequentemente, sendo lembrados sobre a moral mundana.

Estamos falando dos dois sistemas morais neste planeta. No sistema de Deus a preocupação com terceiros é a tônica. No sistema mundano, o egoísmo é a tônica. Se queremos estar no sistema de Deus, então os lembretes deverão estar em consonância com os mandamentos. Por essa razão, Deus ordenou a Moisés que avisasse ao povo sobre os lembretes: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas” (Deuteronômio 6:6-9).


Igrejas são uma grande oportunidade para entrarmos em contato com os lembretes divinos. Hoje, no entanto, as igrejas estão se enchendo dos lembretes mundanos, copiando formas de adoração (adorar é consentir sobre a moral que a divindade exige) que não estão em acordo com a Bíblia, tudo no afã de atrair aqueles que estão constantemente em contato com lembretes do sistema satânico. A situação é um contrassenso, uma vez que querem salvar pessoas do sistema mundano lembrando-as constantemente das circunstâncias mundanas. Os lembretes deverão ser outros.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Vergonha ou Culpa?


Justine Sacco, 30 anos, diretora de comunicação da InterActiveCorp (IAC), usava o Twitter para chamar a atenção das pessoas com piadas. Em uma ocasião alfinetou a organização People for the Ethical Treatment of Animals – PETA, com a seguinte mensagem: “Gosto de animais, mas em dias frios como este até esfolava um por causa da pele” . Noutro momento, depois de uma série de tweets tão agressivos quanto o anterior disse: ”Não posso ser despedida por enviar mensagens intoxicadas, certo?”. Ao chegar ao aeroporto em Nova Iorque, em 20 de dezembro de 2013, a responsável pelas Relações Públicas da IAC continuava sem sensuras a tweetar o que lhe vinha à cabeça. Denunciou o suor de um alemão: “estás em primeira classe. Estamos quase em 2014. Vai comprar um desodorante”. Enquanto esperava seu voo por causa de uma escala no aeroporto de Heathrow, escreveu que os ingleses têm “maus dentes”.
Enquanto aguardava para embarcar na última etapa do voo entre Nova Iorque e Cidade do Cabo, na África do Sul, onde visitaria a família durante o Natal, enviou uma última mensagem para os seus 170 seguidores: “Em direção a África. Espero não apanhar AIDS. Estou brincando! Sou branca!”
Justine Sacco embarcou para uma viagem de 11 horas e aproveitou para dormir, uma vez que naquele avião não havia acesso à Internet. O voo decorreu normalmente, sem sobressaltos. Quando Justine Sacco desembarcou no aeroporto da Cidade do Cabo e ligou o celular, recebeu uma mensagem de alguém com quem não mantinha contato desde os tempos do liceu: “Lamento muito o que está acontecendo”. Logo depois, um SMS da melhor amiga Hanna: “Telefone-me o mais depressa possível”.
As notificações chegavam ao seu celular num ritmo impaciente, deixando-a incrédula, sem saber o porquê. Toque de chamada no celular. Era Hanna. Com voz aflita, informou-a que ela, Justine Secco, a mulher com 170 seguidores, ocupava a primeira posição na lista de trending topics (as palavras mais postadas) do Twitter a nível mundial.
As mensagens não cessavam de chegar: “Enojado com o tweet racista de @Justine-Sacco”. “Como é que esta fulana trabalha em Relações Públicas? O seu nível de ignorância racista está mais de acordo com a Fox News. AIDS afeta qualquer pessoa! ” Uma mensagem incisiva chegou dizendo: “Sou funcionário da IAC e não quero voltar a ver @Justine-Sacco encarregar-se da comunicação em nosso nome”.
Os patrões de Justine Sacco – donos de sites como o The Daily Beast, Vimeo ou CollegeHumor – escreveram um pronunciamento: “Comentário ofensivo e ultrajante que não reflete as opiniões e valores da IAC. Infelizmente, a funcionária em questão está incomunicável num voo internacional, mas isto é um assunto sério e tomaremos medidas apropriadas”. Enquanto ela dormia tudo isto foi acontecendo.
A mídia social transformara Justine Sacco em racista, insensível à pobreza e miséria humanas. Gradualmente, a condenação moral foi-se transformando em divertimento. Quando iria aterrissar? Como iria reagir? Vai ser despedida? Um delicioso sabor a suspense fora adicionado ao molho picante dessa narrativa.
Mais mensagens foram enviadas: “O que eu quero para o Natal é ver a cara da @Justine-Sacco quando receber as mensagens”. “Ela terá o serviço de despertar mais doloroso de todos os tempos”. “Estamos prestes a ver esta fulana ser despedida”. Ela ainda não tinha tomado consciência do que estava acontecendo e nem suspeitava de que estava para perder o emprego.
Ainda não tinha saído do aeroporto e um homem começou a fotografá-la, lembrando um paparazzi assediando celebridades. Era Zac, um utilizador do Twitter que vivia perto do aeroporto e resolvera responder à pergunta mais formulada das últimas horas: #HasJustineLandedYet?
Escreveu alguém. “Então, não há ninguém que viva na Cidade do Cabo para ir ao aeroporto tweetar a chegada dela?” Zac, o Twitter-Paparazzi entrou em ação. E assim aconteceu. Alvo localizado, foto tirada e colocada online: “Sim, @Justine-Sacco aterrou de fato no Aeroporto Internacional da Cidade do Cabo. Está usando óculos escuros para se disfarçar”, escreveu Zac, cheio de brio policial.
Nos seguintes 11 dias ela seria citada no google mais de um milhão de vezes. Ela fora estigmatizada como racista e, como consequência, demitida do emprego. No período de uma noite ele tornara-se persona non grata. Por fim exilou-se na Etiópia na tentativa de apagar o passado.
A nova mídia social tem instigado o retorno de um fenômeno antigo, vergonha pública. Os escritores Jon Ronson (So you ‘ve Been Publicly Shamed) e Jannifer Jacquet (Is shame necessary?) publicaram livros recentes onde discutem tal assunto. Jacquet advoga que a exposição pública ou envergonhar alguém, em alguns casos, pode ser considerado como boa coisa. Isso pode constranger empresas públicas a adquirirem comportamentos mais responsáveis, por exemplo. Já Ronson destaca os perigos. Uma coisa é ser envergonhado pela comunidade à qual você faz parte; outra coisa é ser envergonhado por uma rede global de estranhos que não sabem nada sobre você ou sobre o contexto no qual o seu ato tomou lugar. Isto é como um linchamento, portanto, injustiça.
Tais análises parecem ajudar a compreender o atordoante fenômeno do tzaraat, uma condição longamente tratada em Levítico 13. Tzaraat tem sido traduzida como lepra, doença dermatológica, infecção escamosa. Porém, a identificação de tzaraat com qualquer doença é problemática. Primeiro, seus sintomas não correspondem à doença de Hansen, conhecida como lepra.  Segundo, conforme está descrita em Levitico, afeta não somente humanos, mas também paredes das casas, móveis e roupas (Lev.14:54-55). Não há nenhum problema médico que apresente tais características.
Além disso, a Torá é um livro sobre santidade e conduta correta. Não é um texto médico. Mesmo que fosse, conforme o rabino David Zvi Hoffmann aponta em seu comentário, o procedimento a ser adotado não corresponde àqueles que deveriam ser tomados se tzaraat fosse uma doença contagiosa. Finalmente, tzaraat como descrita na Torá é uma condição que não acarreta só doença, mas impureza, tum’a. É oportuno que se diga que saúde e pureza são coisas diferentes.
O mistério parece decodificado no relato das instancias da Torá nas quais alguém estava afligido por tzaraat. Uma desses relatos aconteceu quando Miriam falou contra seu irmão Moisés (Num. 12:1-15) Outro ocorreu quando Moisés, na sarça ardente, disse a Deus que os israelitas não creriam nele. Sua mão repentinamente tornou-se leprosa como neve (Ex.4:7).
Os comentaristas consideraram tzaraat como punição por lashon hara, falar mal, falar negativamente ou denegrir outra pessoa.
Isto os ajudou a explicar por que os sintomas de tzaraat – mofo, descoloração- poderia afetar paredes, móveis, roupas e a pele humana. Trata-se de uma sequência de avisos ou punições. Primeiro Deus avisava o ofensor enviando um sinal de degradação na parede da casa. Se o ofensor se arrependia a condição desaparecia. Caso contrário, seus móveis eram afetados, então as suas roupas, e finalmente a sua pele.
Como nós compreendemos isto? Por que o falar mal era considerado ofensa assim tão séria que tzaraat era tomada para apontar sua existência? E por que era punido dessa maneira e não de outra?
Foi a antropologista Ruth Benedict em seu livro sobre a cultura japonesa, The Chrysanthemum and the Sword, quem popularizou a distinção entre dois tipos de sociedade – culturas da culpa e culturas da vergonha. Grécia antiga, assim com o Japão, são exemplos de culturas da vergonha. Judaísmo e as religiões por ele influenciadas são exemplos de culturas da culpa. As diferenças entre elas são substanciais.
Na cultura da vergonha, o que importa é o julgamento de outrem. Agir moralmente significa conformação às regras manifestas, leis e expectativas. Fazemos o que outras pessoas esperam que façamos. Seguimos as convenções da sociedade. Se falhamos, a sociedade nos pune submetendo-nos à vergonha, ao ridículo, à desaprovação, humilhação e ao ostracismo.
Na cultura da culpa o que importa não é o que outros pensam, mas a voz da consciência. Viver moralmente bem significa agir de acordo com imperativos morais internalizados: você deve fazer assim e você não deve agir assim. O que importa é o que você sabe ser o certo e o errado.
Pessoas na cultura da vergonha estão direcionadas de outra forma. Elas se preocupam sobre como aparecerão aos olhos dos outros, ou a respeito das suas imagens.
Pessoas na cultura da culpa estão direcionadas para o seu interior. Elas estão preocupadas sobre o que honestamente sabem sobre si mesmas. Mesmo se a imagem pública esteja imaculada, se sabem que tem errado, isto as fará sentir desconfortáveis. Fará acordar durante a noite. Vergonha é humilhação pública. Culpa é tormento interno, íntimo.
A emergência de uma cultura da culpa no judaísmo (portanto interessa ao cristianismo) fluiu de sua compreensão do relacionamento entre Deus e a humanidade. No judaísmo não há atores no palco com a sociedade como audiência e juiz. Pode-se enganar a sociedade; mas não se pode enganar Deus. Toda pretensão e orgulho, o cultivo cosmético da imagem pública é irrelevante: O Senhor não olha para as coisas que as pessoas olham, mas olha para o coração (I Sam.16:7). Culturas da vergonha são coletivas e conformistas. Por contraste, judaísmo, a paradigmática cultura da culpa, enfatiza o indivíduo e seu relacionamento com Deus. O que importa não é se nos conformamos com a cultura da época, mas se fazemos o que é bom, justo e correto. Esta tem sido a postura dos ensinamentos de Ellen White.
A lei da tzaraat parece fascinante; de acordo com a interpretação dos comentaristas, ela constitui uma das raras instâncias de punição por vergonha ao invés da culpa encontradas na Torá. O aparecimento de fungo ou descoloração sobre a parede de uma casa era o sinal público do comportamento errado no privado. Esta era a forma de dizer a todos os conviviam ou visitavam “coisas ruins têm sido feitas neste lugar”. Pouco a pouco os sinais ficavam mais próximos ao culpado, aparecendo na sua cama ou cadeira e, em seguida, nas suas roupas, depois na sua pele, até que finalmente encontrava-se diagnosticado como contaminado:  também as vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas, e a sua cabeça será descoberta, e cobrirá o lábio superior, e clamará: Imundo, imundo.  Todos os dias em que a praga houver nele, será imundo; imundo está, habitará só; a sua habitação será fora do arraial. (Lev. 13:45-46). Estas são por excelência expressões de vergonha. Primeiro é o estigma, a marca pública de desgraça ou desonra (roupas rasgadas, cabelo despenteado). Então vem o ostracismo, exclusão dos assuntos habituais da sociedade. Tais coisas nada têm a ver com a doença, mas com a desaprovação social. Isto é o que torna a lei da tzaraat tão particular: é uma das raras aparições da vergonha pública em uma cultura não baseada na vergonha, mas na culpa. Acontece, porém, não porque a sociedade tenha expressado sua desaprovação, mas porque Deus sinalizou que deveria ser assim. E por que especificamente no caso do lashon hara, falar mal?
 Porque a fala é o que mantém a sociedade unida. Antropólogos têm arguido que a linguagem evoluiu entre os humanos precisamente para fortalecer os laços entre eles, de modo que poderiam cooperar em grandes grupos mais do que quaisquer outros animais. O que sustem a cooperação é a verdade, a confiança. Sacrifícios são realizados em favor do grupo, sabendo que outros são estimulados a fazer o mesmo. Esta é a razão porque lashon hara é tão destrutiva. Ela mina a confiança. Provoca desconfiança entre as pessoas. Enfraquece as ligações que sustentam a unidade do grupo. Se estiver sem controle, lashon hara destruirá qualquer grupo – uma família, uma equipe, uma comunidade, até mesmo uma nação. Daí seu caráter excepcionalmente lesivo; usa o poder da linguagem para enfraquecer o que a linguagem pode criar, ou seja, a confiança que sustenta o vínculo social.
Esta era a razão porque a punição por lashon hara era para excluir da sociedade por exposição pública, estigmatização e vergonha e finalmente o ostracismo.
É difícil, talvez impossível, punir o mexeriqueiro usando as convenções normais do direito – os tribunais e o estabelecimento da culpa. Isto pode ser realizado no caso da difamação ou calúnia, porque são todas declarações falsas. Lashon hara é mais sutil. O falar mal é perpetrado não por falsidade, mas por insinuação. Há muitas maneiras de prejudicar a reputação de uma pessoa sem realmente contar uma mentira.
Alguém acusado de lashon hara facilamente pode dizer, eu não disse isto, não quis dizer isto, e mesmo que tenha feito, eu não disse nada falso. A melhor maneira de lidar com pessoas que envenenam relações sem na verdade proferir falsidades é nomeando-as, envergonhando-as e evitando-as.
De acordo com os sábios, era o que tzaraat miraculosamente fazia nos tempos antigos. Ela já não existe na forma descrita na Torá. Mas o uso da internet e das mídias sociais como instrumento de descrédito público ilustra tanto o poder, como o perigo de uma cultura da vergonha. Só raramente a Torá menciona a cultura da vergonha, e neste caso somente por um ato de Deus, não da sociedade.
Ainda permanece a moral do tornar-se puro. Fofoqueiro malicioso, lashon hara, mina relações, erode ligações sociais e estraga a confiança.  Isto merece ser exposto e envergonhado.
Vivemos momentos solenes que parecem dizer que o final está próximo. Em Apocalipse 22:11 aparece novamente a figura do imundo ou sujo: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda. Conforme vimos, a imundície está atrelada a desunião, desconfiança e desavença. Estas são as características daqueles que não nasceram no reino de Deus. Aliás, em Proverbios 6:16-19 lemos “ Estas seis coisas o SENHOR odeia, e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, O coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, A testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.
(texto adaptado do livro do Rabino J.Sacks “Ensaios sobre ética”)