sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Colocando lembretes

Vamos começar lendo o livro de Números: (capítulo 15:37-40) “E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Que nas bordas das suas vestes façam franjas pelas suas gerações; e nas franjas das bordas ponham um cordão de azul. E as franjas vos serão para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR, e os cumprais; e não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo. Para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sejais a vosso Deus.

Muitos de nós já vivemos situações nas quais agimos abaixo das normas, somente porque ninguém nos está observando. Este parece ser nosso comportamento natural. Fazer o que não está totalmente correto porque estamos sós. Porém, se há a possibilidade de sermos descobertos, agimos de modo diferente e nosso comportamento torna-se moralmente correto.

O Rabino Jonathan Sacks, em seu livro “Ensaios sobre ética” apresenta alguns experimentos realizados para verificar se o anonimato fazia alguma diferença no comportamento social de jovens. Por exemplo, foram distribuídos aleatoriamente a um grupo de estudantes óculos de sol e óculos claros, informando-os que estavam testando uma nova linha de produtos. Também, em uma tarefa aparentemente não relacionada, foram dados seis dólares e a chance de compartilhar a quantia com um estranho. Os jovens que usavam óculos claros deram em média 2,71 dólares, enquanto que os que usavam óculos escuros deram em média 1,81 dólares. O simples fato de estar usando óculos de sol, e assim, sentido que não eram reconhecidos, reduziu a generosidade. Em outro experimento estimularam aos estudantes colarem em provas, colocando um grupo numa sala mal iluminada e outro grupo em sala com iluminação adequada. Os que estavam na sala mal iluminada tinham mais propensão para colar do que os da sala mais iluminada. Isto parece indicar que quanto mais nos sentimos observados, melhores nos tornamos em generosidade e moralmente. Pessoas observadas são pessoas melhores.

Parece paradoxal que não vivamos à altura daquilo que cremos. O apostolo Paulo levantou essa questão quando exclamou “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” Romanos 7:14-24.

O Dr. Deepak Malhotra da Harvard Business School, fez um experimento para ver a disponibilidade de cristãos atenderem apelos de caridade. A resposta era 300% maior quando o apelo ocorria nos domingos e não em outro dia da semana. Claramente os participantes não mudavam de idéia sobre a crença religiosa ou a importância das doações entre dias úteis e domingos. Mas eles estavam mais propensos à generosidade nos domingos porque pensavam mais em Deus do que nos outros dias. Isto parece indicar que o que faz a diferença em nosso comportamento é menos o que cremos e mais o que somos lembrados, ainda que inconscientemente, daquilo que cremos.

Eis a razão para Deus recomendar aos israelitas o uso de franjas na roupa para lembrar os mandamentos. Nós temos um senso moral. Nós sabemos que certas coisas são erradas, mas nós temos desejos conflitantes. Somos tentados a fazer o que sabemos que não deveríamos, e frequentemente nos rendemos à tentação. No domínio moral, isto é o que a Bíblia quer significar quando diz: “E as franjas vos serão para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR, e os cumprais; e não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo” (Números 15:39). Assim, montar lembretes é uma tarefa importante, pois já advertia o Profeta Jeremias quando disse: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9).

Se estar sendo lembrado faz a diferença no campo moral, então faz todo sentido a recomendação para não estarmos expostos aos lembretes morais que são enviados pelo cinema, teatro e a ópera. Nos locais onde são exibidos filmes e peças de teatro (ópera é uma peça de teatro musicada) são enviados lembretes sobre aspectos morais que, em muitos casos, não estão em acordo com os ensinamentos bíblicos.

As tramas sociais que são discutidas nas salas dos cinemas e dos teatros mostram comportamentos humanos não orientados pela moral dada por Deus no Sinai. Porém, mesmo que não frequentemos as salas de espetáculos, estamos expostos diariamente aos mesmos lembretes, por força da influências das mídias modernas. Ter em casa uma TV é estar exposto brutalmente a lembretes que são do comportamento humano tal qual é, mas o Profeta advertiu que o coração humano é enganoso. Quanto mais assistirmos a filmes ou ficar expostos aos folhetins diários, às séries hollywoodianas, às peças teatrais, mais seremos lembrados do comportamento do homem no mundo e não das coisas do céu. Portanto, estaremos envolvidos em ambiente cognitivo adverso e, consequentemente, sendo lembrados sobre a moral mundana.

Estamos falando dos dois sistemas morais neste planeta. No sistema de Deus a preocupação com terceiros é a tônica. No sistema mundano, o egoísmo é a tônica. Se queremos estar no sistema de Deus, então os lembretes deverão estar em consonância com os mandamentos. Por essa razão, Deus ordenou a Moisés que avisasse ao povo sobre os lembretes: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas” (Deuteronômio 6:6-9).


Igrejas são uma grande oportunidade para entrarmos em contato com os lembretes divinos. Hoje, no entanto, as igrejas estão se enchendo dos lembretes mundanos, copiando formas de adoração (adorar é consentir sobre a moral que a divindade exige) que não estão em acordo com a Bíblia, tudo no afã de atrair aqueles que estão constantemente em contato com lembretes do sistema satânico. A situação é um contrassenso, uma vez que querem salvar pessoas do sistema mundano lembrando-as constantemente das circunstâncias mundanas. Os lembretes deverão ser outros.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Vergonha ou Culpa?


Justine Sacco, 30 anos, diretora de comunicação da InterActiveCorp (IAC), usava o Twitter para chamar a atenção das pessoas com piadas. Em uma ocasião alfinetou a organização People for the Ethical Treatment of Animals – PETA, com a seguinte mensagem: “Gosto de animais, mas em dias frios como este até esfolava um por causa da pele” . Noutro momento, depois de uma série de tweets tão agressivos quanto o anterior disse: ”Não posso ser despedida por enviar mensagens intoxicadas, certo?”. Ao chegar ao aeroporto em Nova Iorque, em 20 de dezembro de 2013, a responsável pelas Relações Públicas da IAC continuava sem sensuras a tweetar o que lhe vinha à cabeça. Denunciou o suor de um alemão: “estás em primeira classe. Estamos quase em 2014. Vai comprar um desodorante”. Enquanto esperava seu voo por causa de uma escala no aeroporto de Heathrow, escreveu que os ingleses têm “maus dentes”.
Enquanto aguardava para embarcar na última etapa do voo entre Nova Iorque e Cidade do Cabo, na África do Sul, onde visitaria a família durante o Natal, enviou uma última mensagem para os seus 170 seguidores: “Em direção a África. Espero não apanhar AIDS. Estou brincando! Sou branca!”
Justine Sacco embarcou para uma viagem de 11 horas e aproveitou para dormir, uma vez que naquele avião não havia acesso à Internet. O voo decorreu normalmente, sem sobressaltos. Quando Justine Sacco desembarcou no aeroporto da Cidade do Cabo e ligou o celular, recebeu uma mensagem de alguém com quem não mantinha contato desde os tempos do liceu: “Lamento muito o que está acontecendo”. Logo depois, um SMS da melhor amiga Hanna: “Telefone-me o mais depressa possível”.
As notificações chegavam ao seu celular num ritmo impaciente, deixando-a incrédula, sem saber o porquê. Toque de chamada no celular. Era Hanna. Com voz aflita, informou-a que ela, Justine Secco, a mulher com 170 seguidores, ocupava a primeira posição na lista de trending topics (as palavras mais postadas) do Twitter a nível mundial.
As mensagens não cessavam de chegar: “Enojado com o tweet racista de @Justine-Sacco”. “Como é que esta fulana trabalha em Relações Públicas? O seu nível de ignorância racista está mais de acordo com a Fox News. AIDS afeta qualquer pessoa! ” Uma mensagem incisiva chegou dizendo: “Sou funcionário da IAC e não quero voltar a ver @Justine-Sacco encarregar-se da comunicação em nosso nome”.
Os patrões de Justine Sacco – donos de sites como o The Daily Beast, Vimeo ou CollegeHumor – escreveram um pronunciamento: “Comentário ofensivo e ultrajante que não reflete as opiniões e valores da IAC. Infelizmente, a funcionária em questão está incomunicável num voo internacional, mas isto é um assunto sério e tomaremos medidas apropriadas”. Enquanto ela dormia tudo isto foi acontecendo.
A mídia social transformara Justine Sacco em racista, insensível à pobreza e miséria humanas. Gradualmente, a condenação moral foi-se transformando em divertimento. Quando iria aterrissar? Como iria reagir? Vai ser despedida? Um delicioso sabor a suspense fora adicionado ao molho picante dessa narrativa.
Mais mensagens foram enviadas: “O que eu quero para o Natal é ver a cara da @Justine-Sacco quando receber as mensagens”. “Ela terá o serviço de despertar mais doloroso de todos os tempos”. “Estamos prestes a ver esta fulana ser despedida”. Ela ainda não tinha tomado consciência do que estava acontecendo e nem suspeitava de que estava para perder o emprego.
Ainda não tinha saído do aeroporto e um homem começou a fotografá-la, lembrando um paparazzi assediando celebridades. Era Zac, um utilizador do Twitter que vivia perto do aeroporto e resolvera responder à pergunta mais formulada das últimas horas: #HasJustineLandedYet?
Escreveu alguém. “Então, não há ninguém que viva na Cidade do Cabo para ir ao aeroporto tweetar a chegada dela?” Zac, o Twitter-Paparazzi entrou em ação. E assim aconteceu. Alvo localizado, foto tirada e colocada online: “Sim, @Justine-Sacco aterrou de fato no Aeroporto Internacional da Cidade do Cabo. Está usando óculos escuros para se disfarçar”, escreveu Zac, cheio de brio policial.
Nos seguintes 11 dias ela seria citada no google mais de um milhão de vezes. Ela fora estigmatizada como racista e, como consequência, demitida do emprego. No período de uma noite ele tornara-se persona non grata. Por fim exilou-se na Etiópia na tentativa de apagar o passado.
A nova mídia social tem instigado o retorno de um fenômeno antigo, vergonha pública. Os escritores Jon Ronson (So you ‘ve Been Publicly Shamed) e Jannifer Jacquet (Is shame necessary?) publicaram livros recentes onde discutem tal assunto. Jacquet advoga que a exposição pública ou envergonhar alguém, em alguns casos, pode ser considerado como boa coisa. Isso pode constranger empresas públicas a adquirirem comportamentos mais responsáveis, por exemplo. Já Ronson destaca os perigos. Uma coisa é ser envergonhado pela comunidade à qual você faz parte; outra coisa é ser envergonhado por uma rede global de estranhos que não sabem nada sobre você ou sobre o contexto no qual o seu ato tomou lugar. Isto é como um linchamento, portanto, injustiça.
Tais análises parecem ajudar a compreender o atordoante fenômeno do tzaraat, uma condição longamente tratada em Levítico 13. Tzaraat tem sido traduzida como lepra, doença dermatológica, infecção escamosa. Porém, a identificação de tzaraat com qualquer doença é problemática. Primeiro, seus sintomas não correspondem à doença de Hansen, conhecida como lepra.  Segundo, conforme está descrita em Levitico, afeta não somente humanos, mas também paredes das casas, móveis e roupas (Lev.14:54-55). Não há nenhum problema médico que apresente tais características.
Além disso, a Torá é um livro sobre santidade e conduta correta. Não é um texto médico. Mesmo que fosse, conforme o rabino David Zvi Hoffmann aponta em seu comentário, o procedimento a ser adotado não corresponde àqueles que deveriam ser tomados se tzaraat fosse uma doença contagiosa. Finalmente, tzaraat como descrita na Torá é uma condição que não acarreta só doença, mas impureza, tum’a. É oportuno que se diga que saúde e pureza são coisas diferentes.
O mistério parece decodificado no relato das instancias da Torá nas quais alguém estava afligido por tzaraat. Uma desses relatos aconteceu quando Miriam falou contra seu irmão Moisés (Num. 12:1-15) Outro ocorreu quando Moisés, na sarça ardente, disse a Deus que os israelitas não creriam nele. Sua mão repentinamente tornou-se leprosa como neve (Ex.4:7).
Os comentaristas consideraram tzaraat como punição por lashon hara, falar mal, falar negativamente ou denegrir outra pessoa.
Isto os ajudou a explicar por que os sintomas de tzaraat – mofo, descoloração- poderia afetar paredes, móveis, roupas e a pele humana. Trata-se de uma sequência de avisos ou punições. Primeiro Deus avisava o ofensor enviando um sinal de degradação na parede da casa. Se o ofensor se arrependia a condição desaparecia. Caso contrário, seus móveis eram afetados, então as suas roupas, e finalmente a sua pele.
Como nós compreendemos isto? Por que o falar mal era considerado ofensa assim tão séria que tzaraat era tomada para apontar sua existência? E por que era punido dessa maneira e não de outra?
Foi a antropologista Ruth Benedict em seu livro sobre a cultura japonesa, The Chrysanthemum and the Sword, quem popularizou a distinção entre dois tipos de sociedade – culturas da culpa e culturas da vergonha. Grécia antiga, assim com o Japão, são exemplos de culturas da vergonha. Judaísmo e as religiões por ele influenciadas são exemplos de culturas da culpa. As diferenças entre elas são substanciais.
Na cultura da vergonha, o que importa é o julgamento de outrem. Agir moralmente significa conformação às regras manifestas, leis e expectativas. Fazemos o que outras pessoas esperam que façamos. Seguimos as convenções da sociedade. Se falhamos, a sociedade nos pune submetendo-nos à vergonha, ao ridículo, à desaprovação, humilhação e ao ostracismo.
Na cultura da culpa o que importa não é o que outros pensam, mas a voz da consciência. Viver moralmente bem significa agir de acordo com imperativos morais internalizados: você deve fazer assim e você não deve agir assim. O que importa é o que você sabe ser o certo e o errado.
Pessoas na cultura da vergonha estão direcionadas de outra forma. Elas se preocupam sobre como aparecerão aos olhos dos outros, ou a respeito das suas imagens.
Pessoas na cultura da culpa estão direcionadas para o seu interior. Elas estão preocupadas sobre o que honestamente sabem sobre si mesmas. Mesmo se a imagem pública esteja imaculada, se sabem que tem errado, isto as fará sentir desconfortáveis. Fará acordar durante a noite. Vergonha é humilhação pública. Culpa é tormento interno, íntimo.
A emergência de uma cultura da culpa no judaísmo (portanto interessa ao cristianismo) fluiu de sua compreensão do relacionamento entre Deus e a humanidade. No judaísmo não há atores no palco com a sociedade como audiência e juiz. Pode-se enganar a sociedade; mas não se pode enganar Deus. Toda pretensão e orgulho, o cultivo cosmético da imagem pública é irrelevante: O Senhor não olha para as coisas que as pessoas olham, mas olha para o coração (I Sam.16:7). Culturas da vergonha são coletivas e conformistas. Por contraste, judaísmo, a paradigmática cultura da culpa, enfatiza o indivíduo e seu relacionamento com Deus. O que importa não é se nos conformamos com a cultura da época, mas se fazemos o que é bom, justo e correto. Esta tem sido a postura dos ensinamentos de Ellen White.
A lei da tzaraat parece fascinante; de acordo com a interpretação dos comentaristas, ela constitui uma das raras instâncias de punição por vergonha ao invés da culpa encontradas na Torá. O aparecimento de fungo ou descoloração sobre a parede de uma casa era o sinal público do comportamento errado no privado. Esta era a forma de dizer a todos os conviviam ou visitavam “coisas ruins têm sido feitas neste lugar”. Pouco a pouco os sinais ficavam mais próximos ao culpado, aparecendo na sua cama ou cadeira e, em seguida, nas suas roupas, depois na sua pele, até que finalmente encontrava-se diagnosticado como contaminado:  também as vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas, e a sua cabeça será descoberta, e cobrirá o lábio superior, e clamará: Imundo, imundo.  Todos os dias em que a praga houver nele, será imundo; imundo está, habitará só; a sua habitação será fora do arraial. (Lev. 13:45-46). Estas são por excelência expressões de vergonha. Primeiro é o estigma, a marca pública de desgraça ou desonra (roupas rasgadas, cabelo despenteado). Então vem o ostracismo, exclusão dos assuntos habituais da sociedade. Tais coisas nada têm a ver com a doença, mas com a desaprovação social. Isto é o que torna a lei da tzaraat tão particular: é uma das raras aparições da vergonha pública em uma cultura não baseada na vergonha, mas na culpa. Acontece, porém, não porque a sociedade tenha expressado sua desaprovação, mas porque Deus sinalizou que deveria ser assim. E por que especificamente no caso do lashon hara, falar mal?
 Porque a fala é o que mantém a sociedade unida. Antropólogos têm arguido que a linguagem evoluiu entre os humanos precisamente para fortalecer os laços entre eles, de modo que poderiam cooperar em grandes grupos mais do que quaisquer outros animais. O que sustem a cooperação é a verdade, a confiança. Sacrifícios são realizados em favor do grupo, sabendo que outros são estimulados a fazer o mesmo. Esta é a razão porque lashon hara é tão destrutiva. Ela mina a confiança. Provoca desconfiança entre as pessoas. Enfraquece as ligações que sustentam a unidade do grupo. Se estiver sem controle, lashon hara destruirá qualquer grupo – uma família, uma equipe, uma comunidade, até mesmo uma nação. Daí seu caráter excepcionalmente lesivo; usa o poder da linguagem para enfraquecer o que a linguagem pode criar, ou seja, a confiança que sustenta o vínculo social.
Esta era a razão porque a punição por lashon hara era para excluir da sociedade por exposição pública, estigmatização e vergonha e finalmente o ostracismo.
É difícil, talvez impossível, punir o mexeriqueiro usando as convenções normais do direito – os tribunais e o estabelecimento da culpa. Isto pode ser realizado no caso da difamação ou calúnia, porque são todas declarações falsas. Lashon hara é mais sutil. O falar mal é perpetrado não por falsidade, mas por insinuação. Há muitas maneiras de prejudicar a reputação de uma pessoa sem realmente contar uma mentira.
Alguém acusado de lashon hara facilamente pode dizer, eu não disse isto, não quis dizer isto, e mesmo que tenha feito, eu não disse nada falso. A melhor maneira de lidar com pessoas que envenenam relações sem na verdade proferir falsidades é nomeando-as, envergonhando-as e evitando-as.
De acordo com os sábios, era o que tzaraat miraculosamente fazia nos tempos antigos. Ela já não existe na forma descrita na Torá. Mas o uso da internet e das mídias sociais como instrumento de descrédito público ilustra tanto o poder, como o perigo de uma cultura da vergonha. Só raramente a Torá menciona a cultura da vergonha, e neste caso somente por um ato de Deus, não da sociedade.
Ainda permanece a moral do tornar-se puro. Fofoqueiro malicioso, lashon hara, mina relações, erode ligações sociais e estraga a confiança.  Isto merece ser exposto e envergonhado.
Vivemos momentos solenes que parecem dizer que o final está próximo. Em Apocalipse 22:11 aparece novamente a figura do imundo ou sujo: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda. Conforme vimos, a imundície está atrelada a desunião, desconfiança e desavença. Estas são as características daqueles que não nasceram no reino de Deus. Aliás, em Proverbios 6:16-19 lemos “ Estas seis coisas o SENHOR odeia, e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, O coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, A testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.
(texto adaptado do livro do Rabino J.Sacks “Ensaios sobre ética”)




sábado, 20 de maio de 2017

Uma declaração simples de princípios capitais


Os dez mandamentos têm um lugar especial, não só no judaísmo, mas também dentro das configurações mais amplas dos valores chamados a ética judaico-cristã. Em muitas instituições de justiça ao redor do mundo são encontrados como adorno e referência, permanecendo como a expressão da lei superior a qual está associada a todas as leis humanas.

Dentro do judaísmo, nos tempos do segundo templo, eles eram recitados nas preces diárias como parte do SHEMA (Deut. 6:4-9 a profissão de fé central do judaísmo), o qual tinha quatro parágrafos ao invés de três. No entanto, foram suprimidos do SHEMA, mas mantiveram sua integridade sendo preservados no SIDUR (livro litúrgico) na condição de uma meditação privada a ser dita após a celebração do serviço formal. Na maioria das congregações, pessoas permanecem quando os dez mandamentos são lidos como parte da leitura da Torá. A singularidade dos dez mandamentos, todavia, não é prontamente alcançada.

Como princípios éticos, não os entendemos como novos. Na maioria das sociedades existem leis contra assassinatos, pilhagens, e falsos testemunhos. Mas há originalidade pelo fato de que são apodíticos (necessariamente verdadeiros por evidência e por demonstração). A Torá os chama de aseret hadevarim, que foi traduzido como decálogo.
O que os torna característicos é que são simples e fácies de memorizar. A razão para isto é que a lei não é planejada somente para juízes.

A aliança no Sinai, em consonância com o igualitarismo profundo no coração da Torá, foi feita não como outras alianças promovidas entre reis no mundo antigo. O pacto do Sinai foi feito por Deus com todo o povo. Daí a necessidade de uma declaração simples de princípios capitais que todos podem lembrar e recitar. Mais do que isso, eles estabelecem para todos os tempos os parâmetros da existência judaica que serviu como espelho para o mundo. Para compreender como, vale a pena refletir sobre a sua estrutura básica.

Um tema fundamental é como estão divididos.  A maioria das representações dos dez mandamentos analisa-os em dois blocos, por causa das duas tábuas de pedra (Deut. 04:13), nas quais foram gravados. Rudemente falando, os cinco primeiros são sobre a relação entre humanos e Deus, os outros cinco sobre a relação entre os seres humanos. Há, no entanto, uma outra maneira de pensar sobre as estruturas numéricas da Torá. Vejamos alguns arquétipos.

Os sete dias da criação, por exemplo, são estruturados como dois conjuntos de três dias, seguidos por um sétimo dia todo-abrangente. Durante os três primeiros dias Deus separou domínios: luz e trevas; águas superiores e inferiores, mar e terra seca. Durante os outros três seguintes dias Ele preencheu cada domínio com os objetos apropriados e formas de vida: sol e lua; pássaros e peixes; animais e homem. O sétimo dia foi designado para além dos outros como santo.

Da mesma forma, as dez pragas consistem de três séries de três, seguidas por uma décima toda abrangente e autossuficiente.  As duas primeiras foram avisadas, enquanto a terceira atingiu sem aviso. Na primeira de cada série, Faraó foi avisado de manhã (Êxodo 7:16; 9:13); na segunda série de três Moisés foi comandado para entrar perante Faraó (Êxodo 8:1; 9:1; 10:1) no palácio e assim por diante. A décima praga, ao contrário das outras, foi anunciada desde o início (Êxodo 4:23). Era mais que uma praga, um castigo.

As sete cores do arco ires (vermelho, laranja, amarelo; verde, azul anil; violeta); as sete camadas atômicas, entre outras, são exemplos da estrutura numérica bíblica. No caso do arco ires, são dois grupos de cores e uma abrangente.

Similarmente, parece que os mandamentos estão estruturados em três grupos de três, com um décimo que é colocado à parte do restante. Assim compreendido, poderemos ver como formam uma estrutura básica, a regra de profundidade moral de Israel como sociedade vinculada por uma aliança com Deus, um reino de sacerdotes e uma nação santa (Êxodo 19:6).

Os três primeiros – não terás outros deuses além de mim, não farás imagens de escultura, não tomar o nome de Deus em vão – definem o povo que os observa como uma nação sob Deus. Deus é o senhor soberano. Portanto, todas as outras regras terrenas estão sujeitas aos imperativos globais, vinculando os observadores dos mandamentos a Deus. A soberania divina transcende a todas as outras lealdades (nenhum outro deus). Deus é uma força viva, não um poder abstrato (nenhuma imagem). E soberania pressupõe reverência (não use meu nome em vão).

Os primeiros três mandamentos, através dos quais as pessoas declaram sua lealdade e obediência a Deus acima de tudo, estabelecem o único princípio de uma sociedade livre, ou seja, os limites morais do poder. Sem isso, mesmo na democracia, há o perigo da tirania, contra a qual a melhor defesa e a soberania de Deus.

O segundo grupo de três mandamentos – sábado, honrar os pais, proibição do assassinato – são todos sobre o princípio da preexistência da vida. Eles estabelecem os limites para a ideia de autonomia, ou seja, que somos livres para fazer o que gostamos desde que não prejudiquemos os outros. Sábado é o dia dedicado a ver Deus como criador e ao universo como sua criação. Daí um dia em sete, todas as hierarquias humanas estão suspensas e todos – mestres, escravos, empregadores, empregados, mesmo os animais domésticos – são livres.

O honrar os pais reconhece a preexistência humana (havia vida antes de nós nascermos). Diz-nos que nem tudo é o resultado de nossa escolha – principalmente, o fato da nossa existência. Importam as escolhas das outras pessoas, não apenas a nossa própria. Quando chegamos, o mundo já estava organizado e pessoas que nos antecederam atuaram nele. Nossa compreensão da pré-existência nos impõe humildade, uma vez que encontramos uma construção da qual não participamos, mas usufruímos e poderemos atuar nela. Não matarás reafirma o princípio central do pacto universal com Noé (Gen. 9:1-7), que o assassinato não é apenas um crime contra o homem, mas um pecado contra Deus, de quem somos imagem. Então os mandamentos de quatro a seis formam o princípio básico da jurisprudência da vida. Fazem-nos lembrar de onde viemos, e nos impõe estar atentos no como viver.

O terceiro conjunto de três mandamentos – contra o adultério, roubo, falso testemunho – estabelece as instituições básicas sobre as quais a sociedade depende. Casamento é sagrado porque é a mais forte união humana a qual se aproxima da aliança entre Deus e os homens. Não somente o casamento é uma instituição humana por excelência, a qual se estabelece sobre a lealdade e fidelidade, mas também é a matriz de uma sociedade livre, considerando que a constituição familiar é de livre escolha, logo, uma sociedade se forma a partir da livre escolha porque as famílias são de livre escolha.

A proibição contra a pilhagem estabelece a integridade da propriedade. São direitos inalienáveis a vida, a liberdade, a posse e a busca pela felicidade. Tiranos abusam da propriedade, e o ataque à liberdade atenta contra a dignidade humana. A escravidão é o que nos priva da posse da riqueza que criamos.

A interdição do falso testemunho é a pré-condição da justiça. Uma sociedade justa necessita mais do que uma estrutura de leis, tribunais e agências de aplicação da justiça. Não há liberdade sem justiça, assim como não há justiça sem que aceitemos individualmente e coletivamente a responsabilidade por falar a verdade, somente a verdade, e nada mais que a verdade.

Finalmente vem a proibição autossuficiente contra a inveja. Isso parece estranho se pensarmos nos dez mandamentos como comandos, mas não se pensarmos neles como princípios básicos para uma sociedade livre. O desafio gigantesco a qualquer sociedade é conter o quase inevitável acontecimento da inveja, o anseio de obter o que compete a outro. Inveja está apoiada no íntimo da violência. Foi a inveja que levou Cain matar Abel, fez Abraão e Izaac temerem por suas vidas por causa das suas lindas esposas, levou os irmãos de José a odiá-lo e força-lo à escravidão. É a inveja que leva ao adultério, à corrupção, ao roubo, ao falso testemunho; foi a inveja em relação aos vizinhos que levou o antigo Israel a abandonar a Deus em favor de práticas pagãs do seu tempo.

Inveja é a falha em compreender o princípio da criação como exposto em Genesis 1. Cada coisa tem o seu lugar no diagrama das coisas. Cada um de nós tem seu próprio dever e suas próprias bênçãos; somos amados e queridos de Deus. Vivendo por essa verdade estabelecemos a ordem. Abandonando-a estabelecemos o caos. Nada é mais inútil e destrutivo do que deixar a felicidade de alguém diminuir, porque agenciamos a inveja. O antídoto para inveja é o regozijo com o que temos e não a preocupação com o que não temos.

A sociedade de consumo é construída na criação e intensificação da inveja, a qual leva as pessoas possuir mais e apreciar menos.

Os dez mandamentos continuam a ser os mais simples, os mais curtos guias para a criação e manutenção de uma boa sociedade. Muitas alternativas têm sido criadas e muitas têm terminado em lágrimas. O adágio sábio conservar-se verdadeiro: quando tudo o mais falhar, leia as instruções, ou seja, siga os dez mandamentos.


Texto adaptado do livro “Essays on Ethics” do Rabino Jonathan Sacks.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A terra, o mar e o céu estão cheios de verdades

Todo ser humano na posse do seu arbítrio busca saber a verdade. Sempre que nos referimos à           verdade, a primeira noção que salta no pensamento é a religiosa. Mas, a verdade é ainda mais abrangente, significa entender a real situação, as propriedades e os modos da realidade que nos cerca. A busca pela verdade é a incessante procura na qual a alma humana se aplica para entender o seu papel ou a sua função num mundo muito complexo. Neste sentido, torna-se a busca mais importante.
As religiões se utilizam desta necessidade para atrair prosélitos. Todas dizem esclarecer ou responder aos questionamentos da alma na busca do nexo da vida. Mas, a experiência relatada por maciça parte dos religiosos informa que permanece um vazio não preenchido pelas chamadas verdades teológicas. Por que os códigos de ética religiosos não preenchem o vazio?

Primeiramente, para o mundo cristão, a Bíblia é a escritura sagrada onde estão assentados os princípios que devem ser consultados quando se busca a verdade. Para o ambiente judaico a Bíblia (Torá) contém os oráculos divinos e deve ser compreendida e obedecida. Assim, em Deuteronômio 32:4 lemos “Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é”. A fonte da verdade, de acordo com o texto, é Deus. Se é assim, é fácil compreender a razão pela qual a teologia disponível na maioria das religiões não preenche o vazio. Tal teologia está repleta de verdades humanas e conforme Jeremias 17:9 “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso[...]”, ou seja, não poderá haver verdade em códigos éticos que brotam de corações enganosos. As tradições humanas não conseguem traduzir as propriedades e os modos da realidade que cerca a sociedade. A causa disso é a ausência de justiça nas ações humanas. Religiões baseadas em “verdades” humanas não alcançam o padrão de justiça requerido pela verdade ontológica do universo.

Alguns textos bíblicos são explicativos: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus da verdade” (Salmos 31:5). “Tu estás perto, ó SENHOR, e todos os teus mandamentos são a verdade. A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade” (Salmos 119:151-2). “Mas o SENHOR Deus é a verdade; ele mesmo é o Deus vivo e o Rei eterno; ao seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação” (Jeremias 10:10). Se Deus é a verdade, se os mandamentos são a verdade, qualquer sistema religioso que propõe outro código de ética baseado em tradições humanas, não pode pretender ser a verdade.

Em Salmos 146:6 lemos: “O que fez os céus e a terra, o mar e tudo quanto há neles, e o que guarda a verdade para sempre”. Vejamos, se Deus é a verdade, e se foi Ele quem criou tudo, então poderemos encontrar a verdade na sua criação.

A escritora Ellen White (A Caminho do Lar, p.41) demonstra que “Há maravilhosas verdades na natureza. A terra, o mar e o céu estão cheios de verdade. São nossos professores. A natureza proclama a sua voz em lições de sabedoria celestial e de verdade eterna”. De outra forma, ela confirma o que segue: “Visto que o livro da natureza e o da revelação apresentam indícios da mesma mente superior, eles não podem deixar de estar em harmonia. Com diferentes métodos e linguagens, dão testemunho das mesmas grandes verdades. [...] O livro da natureza e a palavra escrita lançam luz um sobre o outro. Servem para nos familiarizar com Deus, ensinando-nos algo das leis por meio das quais Ele opera” (Educação, p.128). Ora se é através da natureza que se pode aprender sobre as leis por meio das quais Deus opera, então teremos que ir até lá.

Vamos usar o raciocínio dedutivo para analisar alguns aspectos dos sistemas naturais. Quando olhamos o universo com a sua organização, com suas galáxias, vemos uma densíssima massa de corpos celestes em estreita cooperação uns com os outros. As grandes galáxias são centros de gravitação em torno dos quais orbitam galáxias menores. Dentro das galáxias estão os sistemas planetários com uma estrela como centro gravitacional e planetas girando em suas órbitas e equilibrando-se gravitacionalmente uns nos outros.

Se descermos até o microuniverso, encontrando a estrutura atômica, veremos o mesmo sistema cooperativo em atuação. O núcleo com os prótons e nêutrons circundado por uma coroa onde vemos os elétrons mantidos em suas órbitas pela força eletrostática, um incrível sistema de cooperação. São rodas dentro de rodas. Semelhante estrutura aparece na musculatura circular que regula a abertura da pupila ocular.

 Dentro das células encontramos uma organela, a mitocôndria, onde ocorre a respiração celular. Nela ocorre o complicado ciclo de Krebs, uma rota anfibólica, ou seja, uma série de reações catabólicas e anabólicas , com a finalidade de oxidar a acetil-CoA (acetil coenzima A), que se obtém da degradação de carboidratos, ácidos graxos e aminoácidos a duas moléculas de CO2. Na verdade, um incrível sistema de cooperação onde ocorrem vários deslocamentos de moléculas de hidrogênio que vão pulando de um lado para outro com a finalidade de produzir energia. Por outro lado, os principais ciclos da natureza, tal como o das águas, é demonstrativo de como a cooperação é o motor da dinâmica física natural. Na biosfera podemos ver como plantas e animais estão em intima associação para dar continuidade ao ciclo de nutrientes e à própria reprodução. Todos esses aspectos demonstram o que a Bíblia identifica como a justiça de Deus.

Se Deus é a verdade e a sua lei é a verdade, então pode-se concluir através da observação do sistema natural que a verdade é um sistema universal de cooperação.

Olhando melhor o comportamento de Jesus relativo aos sistemas religiosos, não encontramos nenhuma iniciativa para formar uma dissidência do judaísmo ou fundar uma nova religião. A verdade não tem uma relação direta com as religiões, mas, conforme vimos, é um importante sistema de cooperação que aparece subjacente a toda criação. Tal sistema foi referendado por Jesus inúmeras vezes.

No evangelho de Mateus (capítulo 19) vemos que o jovem rico foi instado a entrar no sistema universal de cooperação: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me”. Também vemos o mesmo ensinamento no milagre da multiplicação do alimento. Jesus diz aos discípulos quando O interpelaram reivindicando que o povo estava exausto e com fome (Lucas 9:13) “Dai-lhes vós de comer. E eles disseram: Não temos senão cinco pães e dois peixes, salvo se nós próprios formos comprar comida para todo este povo”. Depois o próprio Jesus demonstrou o sistema celeste (Lucas 9:16) “tomando os cinco pães e os dois peixes, e olhando para o céu, abençoou-os, e partiu-os, e deu-os aos seus discípulos para os porem diante da multidão”.

De outro lado, após a ascensão de Jesus quando da descida do Santo Espírito durante o Pentecoste, os discípulos enxergaram o sistema celeste e estruturam a igreja cristã como um sistema de cooperação que está descrito em Atos capítulo 2:42-44 “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum”. O que vimos acima são apenas alguns exemplos demonstrativos do grande ensinamento contido na Torá, mas os profetas falaram muito sobre o sistema de cooperação, instando para todos entrassem nele.

Desde a igreja cristã primitiva até o presente, ocorreram alterações substantivas da realidade demonstrada por Cristo. A própria igreja encheu-se da tradição humana e voltou-se para uma “verdade” que tem origem no coração dos homens, o qual é enganoso, cobiçoso e egoísta. Não mais foi ensinado o grande princípio escrito na Torá e alertado por Paulo (Atos 20:35) “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”. Os sistemas religiosos cristãos têm ensinado uma nova teologia repleta de ensinos humanos, enganando a muitos com ensinamentos que definem “bênçãos” através de aquisições egoístas. Assim como os judeus pensavam que a posse de bens materiais traduzia a benção de Deus, os cristãos assumiram o mesmo desejo e querem fugir da verdade buscando um evangelho que lhes seja propício ao egoísmo.

A verdade não está em qualquer sistema religioso, mas consiste num grande sistema universal de cooperação. Qualquer sistema religioso que não ensine que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”, não pode pretender ter a verdade. Assim, cuidado com a busca da prosperidade como um fim. Considere que Deus é justo e espera que seus filhos pratiquem a justiça. Esta se define como sendo a atribuição do que é devido a cada um, ou seja, equidade.

Quando Jesus regressar e concluir o processo de expiação (que está em andamento), então estabelecerá novos céus e nova Terra, onde habitará a justiça. Por enquanto, até chegarmos ao grande dia do Senhor, nosso dever é seguir o que exorta Deuteronômio 16:20 :“A justiça, somente a justiça seguirás; para que vivas, e possuas em herança a terra que te dará o SENHOR teu Deus”. Também devemos lembrar que “cada um deve contribuir segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (II Coríntios 9:7). No sistema universal de cooperação, recebemos para dar.










terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Deus revela a si próprio

Uma leitura obrigatória para os cristãos é o livro de Jó. De acordo com informações históricas, é de autoria de Moisés. Foi o primeiro livro escrito de todos os que compõem a Bíblia. Considerando que Moisés é reputado como o profeta mais eminente, pois Deuteronômio 34:10-12 refere-se a ele da seguinte forma: “E nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, a quem o SENHOR conhecera face a face; nem semelhante em todos os sinais e maravilhas, que o SENHOR o enviou para fazer na terra do Egito, a Faraó, e a todos os seus servos, e a toda a sua terra. E em toda a mão forte, e em todo o grande espanto, que praticou Moisés aos olhos de todo o Israel”, melhor será considerar o que ele escreveu como importante leitura.

Há na compreensão dos teólogos duas maneiras pelas quais Deus revelou a si mesmo: 1) através da criação, onde pode-se verificar em atuação os princípios que embasam Seu governo, ou seja, pode-se ver a lei de Deus em funcionamento. A revelação através da natureza é chamada de natural. No Salmo 19 está descrito como o salmista percebia a revelação de Deus através da criação. 2) a chamada Sagrada Escritura, a Bíblia, onde Deus revela a si próprio falando diretamente ao homem. Esta revelação é chama de especial.

Assim, o primeiro livro escrito por Moisés tem como finalidade introduzir toda a Bíblia, mostrando do ponto de vista do próprio Deus a grande controvérsia iniciado por Satanás, quando ainda se encontrava no céu, mas que tem seu prosseguimento na Terra, como consequência da adesão de adão à proposta de Satanás. Moisés mostra como é a atuação dos protagonistas desse embate cósmico, qual o papel das criaturas especificando a postura humana e sua compreensão desse conflito. Por tais razões, não se pode menosprezar as informações contidas no livro de Jó.

Os diálogos do livro são colocados propositalmente para que sejam esclarecidos ensinamentos capitais e plantadas as ideias que poderão ser úteis para as escolhas humanas.

O primeiro diálogo se dá entre Deus e Satanás. Nele estão as posições de ambos. O assunto introduzido por Deus é a Sua justiça e abnegação. O assunto introduzido por Satanás é a impossibilidade de justiça e abnegação por parte de Deus. Este não pode ser abnegado porque possui poder absoluto. Assim, a solicitação de abnegação às criaturas é um ato de injustiça, e neste ambiente, Jó não suportaria nenhuma prova.

Também não há, segundo Satanás, nenhuma integridade em Jó. Não há nenhum justo. Uma vez que a Terra está submetida ao sistema não abnegado de Satanás, nenhum homem será abnegado e, por conseguinte, Jó serve a Deus por puro egoísmo. Satanás contesta toda estrutura religiosa como capaz de melhorar o homem.

Depois, os diálogos que seguem são os humanos. Os amigos de Jó aparecem e Deus não está mais presente ou fica como que oculto. Os argumentos são sempre na direção da defesa de Deus. Os amigos julgam que Jó tenha cometido algum demérito religioso e sofre, naturalmente, as consequências. Suas mazelas são castigos divinos. O conceito evocado pelos amigos necessita ser avaliado. Trata-se da compreensão humana da teologia. Os sistemas religiosos criados pelo homem são de molde a dar condições de aquisições meritocráticas para pleitear a atenção divina. Assim, os amigos de Jó argumentavam que faltava a ele mérito. Esta ideia de que o homem pode produzir boas obras e ser digno é o fundo do sistema religioso judaico, o mesmo que fora combatido por Jesus. O argumento está colocado na dinâmica religiosa cristã onde ritos se tornam moedas de troca.

É importante que se analise o fundamento colocado pela Bíblia sobre o que deve ser buscado por um religioso. A palavra cristão significa seguidor de Cristo. Assim, os cristãos seguirão seu mestre, farão as mesmas obras e abraçarão a formação de um caráter semelhante ao de Jesus. Paulo adverte que devem os cristãos imitar a Cristo; João diz que aquele que segue a Cristo o demonstrará realizando as mesmas obras que Ele executou. Assim, as boas obras são de fundamental importância para definir de que lado estão os seguidores de Cristo. “A vida daquele em cujo coração Cristo habita, revelará a piedade prática. O caráter será purificado, elevado, enobrecido e glorificado. A doutrina pura estará entretecida com as obras de justiça; os preceitos celestiais misturar-se-ão com as práticas santas” (Ellen White, Refletindo a Cristo, p.73).

Por outro lado, o sistema sacrifical ensinava que apesar do perdão e das boas obras, era necessário um substituto para que o pecador não viesse a sofrer a penalidade da lei. Assim, era necessária a figura de um salvador que tivesse meios para pagar a dívida em relação à lei. Nesse caso, a Bíblia nos informa que o nosso substituto ou salvador é Cristo. No livro de Isaías no capítulo 53 temos a explicação de como Jesus nos substituiu. Mas o verso 4 do referido capítulo traz o sistema teológico humano onde encontramos que “nós o reputávamos por aflito”, o mesmo argumento usado pelos amigos de Jó para explicar a razão do sofrimento dele. Podemos ver que o sistema religioso humano prevê que se houver boas obras haverá também o mérito. Mas definitivamente é necessário um salvador, porque estamos submetidos às correntes de Satanás e estas somente serão quebradas com a morte, e neste caso, necessitamos da ação de um salvador que possa nos livrar da pena. Essa condição está explícita em Hebreus 2:14-15: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão.

A necessidade de um salvador está negada no sistema cristão de méritos. A igreja romana substituiu Cristo pelo sacerdócio romano; os fiéis vão até um sacerdote e buscam nele a intermediação e o perdão. O sistema romano vai muito além, propõe a salvação através da missa e a canonização se o fiel tiver méritos. O santuário celeste onde Deus está e onde se processa o juízo foi transferido para Roma. Os homens são deuses conforme prometera a serpente para Adão e Eva. Esse é o grande engano; um sistema religioso no qual o mérito é suficiente. Tal entendimento perpassa também a maioria das teologias protestantes.

Agora voltando ao livro de Jó, encontramos o principal diálogo. De repente, Deus reaparece a partir do capítulo 38 e começa a revelar-se de uma forma didática e absoluta.

Antes Jó advogava que se lhe fosse dada a oportunidade de dialogar com Deus, explicaria sua situação e demonstraria a Deus aspectos da realidade humana que, segundo sua compreensão religiosa, por Deus não ser homem, escaparia à percepção dEle. Assim Jó montou uma lista de perguntas que seriam a sua defesa. Porém, quando Deus passa a revelar-se demonstrou Sua onipotência e onisciência de uma forma que Jó percebeu-se indigno. Deus não entregou nenhuma explicação sobre o sofrimento de Jó, mas discorreu sobre a abnegação divina, mostrando que a encarnação de Jesus e todo o Seu sofrimento e morte são a antítese que nega as afirmações de Satanás. Após isso, Jó compreende que o sofrimento humano não tem nenhuma importância, pois é a cortina de fumaça usada para impedir a visualização do caráter de Deus; que o grande conflito é muito maior que o egoísmo humano; passa a compreender o papel do homem diante do universo e exclama “Então respondeu Jó ao SENHOR, dizendo: Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido. Quem é este, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram inescrutáveis, e que eu não entendia. Escuta-me, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. (Jó 42:1-5).


Podemos perceber, pelo exposto acima, que o sofrimento no contexto deste mundo é provocado pelo inimigo. O propósito dele é formar um ambiente no qual surja o raciocínio da não abnegação de Deus. Trazendo sofrimento Satanás julga que nenhum homem poderá querer abnegação; olhará para si mesmo com autocomiseração e inquirirá onde está a justiça. Neste contexto, um sistema religioso que oferece o mérito como barganha para bênçãos é uma inteligente maneira de reforçar a tese de que Deus não é justo nem abnegado. Não estamos lidando com um inimigo ingênuo, mas sim com uma mente muito altamente capaz e que não deve ser subestimada. Assim, a tarefa de conhecer Deus é o caminho seguro conforme demonstrado no livro de Jó. A cruz é a demonstração da obra de redenção humana, além de manifestar o amor de Deus ao universo; a cruz refuta as acusações de Satanás da impossibilidade de um Deus abnegado.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Confiando em coisas não confiáveis


No próximo ano (2017) dar-se-á a comemoração conjunta católico-luterana dos 500 anos da Reforma protestante que iniciou em 31 de outubro de 1517, quando Lutero afixou as 95 teses na porta da igreja católica de Wittenberg, Alemanha. Esse momento de comemoração se tornará um marco importante no aperfeiçoamento do poder papal, promovendo a aproximação fundamental com a principal liderança protestante, que poderá resultar no anunciado ecumenismo que antecederá os últimos episódios antes do final da história do pecado. Um dos pontos divergentes entre católicos e luteranos está na justificação pela fé. A controvérsia ocorre no aspecto da obra humana que, segundo Lutero, não pode ser apresentada a Deus como garantidora de méritos à salvação. Assim, o conceito de pessoa justa é o foco da controvérsia. 

Essa questão é muito remota. Aparece no mais antigo livro da bíblia, o de Jó, onde logo no primeiro verso do capítulo inicial Deus o define como íntegro. Tal adjetivo é definido no dicionário como inteiro ou completo, significando ser honrado ou imparcial. O referido conceito não propõe a ideia de impecabilidade, mas, na tradição judaica associou-se a palavra Tzedek = justiça com a palavra Tzedaká = justiça social. Erroneamente traduziu-se esta palavra como sendo caridade. Tzedaká não é caridade. A Tzedaká, seria não só “dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Não só dar o pão, mas oferecer um emprego ou uma bolsa de estudos.  Assim, Jó era íntegro e não santo como quer o conceito cristão. É importante notar que Jó fazia sacrifícios por ele e por seus filhos e, por esse motivo, Deus o considerava íntegro. Integridade somente é comunicada através de atos de fé nas promessas de salvação, ou seja, tomando a justiça de Jesus como produtora de perdão.

O diálogo entre Deus e Satanás no primeiro capítulo do livro de Jó é revelador do estado desse homem considerado um servo de Deus. Assim, nos versos 6 a 12 vemos o que segue: “E num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles. Então o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.  E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal. Então respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra. Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face. E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR.

Nos argumentos dialéticos acima vemos que Satanás sabia que nenhum homem possui justiça. Assim, ele afirma que a obediência de Jó não era isenta de interesses. O que está em pauta é nossa essência egoísta que não nos permite guardar a lei sem interesses. Nossos atos são pecaminosamente ofensivos se a justiça de Cristo não nos for por cobertura. Tudo parece mais claro a respeito do comportamento humano quando observamos a ação de Satanás, na vida de Jó, na tentativa de comprovar suas afirmações. Ele tira inicialmente a riqueza, a principal pilastra na qual toda humanidade se apoia. Depois o inimigo subtrai a família, outra importante pilastra e em seguida afeta a saúde. Essas três pilastras são parte do arrimo que ampara todos os homens e nelas estava também a confiança de Jó. Como se não bastasse, os amigos de Jó aparecem construindo diálogos que ratificam a ideia de segurança na religião. Esta constitui parte da estrutura de arrimo humano. Para os amigos, Jó estava devendo maior rigor religioso, razão para o sofrimento. Porém, para Jó não havia nenhum passivo religioso que justificasse o seu estado. Por essa razão, um encontro com Deus poderia dar-lhe a chance de explicar o que, segundo Jó, escapava da percepção divina sobre a condição humana. No entanto, no capítulo 38, quando começa o diálogo de Deus com Jó, a divindade não responde a nenhum dos argumentos de Jó, levando-o a entender que sem conhecer ao próprio Deus ninguém pode entender as dinâmicas envolvidas na estrutura terrestre e que dizem respeito à disputa entre o bem e o mal.

Deus não debateu com Jó nenhuma razão para o seu sofrimento. Apenas revelou-se como o Senhor de todas as coisas e a causa primária de tudo, ou seja, se Ele tem tudo sob Seu controle, o sofrimento de Jó era parte do seu plano para aprimoramento. Ao perceber a onisciência de Deus, Jó não pode perguntar nada, apenas se deu conta da própria indignidade.

O apóstolo Paulo parece ter passado por um momento semelhante quando solicitou que Deus o curasse do “espinho” que feria a sua carne. A resposta de Deus foi “a minha graça te basta”, significando que Paulo deveria prosseguir em conhecer Deus; e ele aquietou-se.  

Conhecer Deus deveria ser a tarefa mais importante para todos os que se aproximam dEle. Em Jeremias 9:24 lemos: “Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR”. Há uma razão para tal proceder. O conhecimento sobre Deus trará paz, especialmente nas circunstâncias de uma realidade pecaminosa. Na medida em que Deus se revelar, passaremos a compreender nosso próprio papel na luta entre o bem e o mal, nas várias dimensões nas quais estamos submetidos, ou seja, qual a nossa participação nos plano universal e humano, no sentido de cooperar com nosso Deus na reivindicação da justiça.

Deus revela-se a Jó através de inúmeras perguntas que o levam a perceber que seu sofrimento não era importante em si mesmo, mas uma ferramenta que, no caso de Jó, o levaria a entender melhor o seu próprio comportamento. Assim, pode-se entender algo muito importante: o sofrimento de cada um é pessoal e pode significar que a confiança esteja ainda calcada em pilastras que não podem sustentar. Veja-se o que Jó exclamou “ Então respondeu Jó ao SENHOR, dizendo: Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido. Quem é este, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram inescrutáveis, e que eu não entendia. Escuta-me, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. Agora te conheço, antes apenas tinha ouvido falar”. Essas afirmações significaram a libertação de alguém que estava confiando em coisas não confiáveis. Jó entendeu a onipotência de Deus. A primeira coisa que ele reconhece é o limite de seu conhecimento. Suas conclusões se baseavam na ignorância; portanto, embora ele fosse sincero, estava errado.

Quão inadequado parece ser o conhecimento parcial quando brilha a luz de uma verdade maior! Quando Jó fez suas queixas, seu raciocínio lhe parecia irrefutável. Ele achava que sua atitude era justificada. Mas, quando entendeu a Deus mais claramente, seu raciocínio anterior não mais pareceu convincente. A lógica humana muitas vezes se demonstra falha. Ideias que hoje parecem sábias podem se tornar absurdas amanhã. A disposição de Jó para admitir sua ignorância é elogiável. Ele não tenta se desculpar ou defender sua posição. É tão honesto em sua confissão como foi em sua argumentação. Esta característica é parte da integridade que o relato atribui a Jó desde o princípio (Jó l:l). (SDA Bible Commentary, 690).


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Viver é uma grande aventura


Hoje escrevo porque Deus me concedeu a subida honra de completar mais um ano. À medida que passa o tempo, espera-se que a vida force aparecer mais tolerância, sensatez e sabedoria. Mas, essas coisas não acontecem naturalmente, tolerância se pratica e se adquire praticando, sensatez vem pela experiência vivida, pelos embates, porém se não houveram embates e a vida foi vivida atoa, é pouco provável a aquisição de sensatez. A sabedoria é ainda mais difícil, considerando que é necessária adição de informação, e esta não é aditada automaticamente. Assim, viver é um a aventura que pode ser calculada e pensada.

Minha vida tem sido uma grande aventura com altos e baixos. Muitos altos e uns poucos baixos. Hoje, vivendo a experiência da década dos sessenta, posso olhar para trás e ver, com muita nitidez, o quanto fui dirigido por um Deus que tem se esforçado em dar-me o que eu não teria pensado por mim mesmo.

Nasci numa família de classe média, meu pai era um excelente Pastor e Professor, um homem muito culto que me ensinou a olhar para o elevado e sofisticado. Em casa ouvíamos música clássica e líamos livros biográficos para termos exemplos edificantes. A mim, especificamente, minha mãe impunha a leitura bíblica onde histórias como a de José e Daniel eram estudadas antes dos folguedos. Como qualquer jovem, às vezes achava um pouco exagerado o jeito de minha mãe educar e, talvez, não tenha aproveitado melhor o ambiente em casa. Minha mãe tinha paixão por música e queria que os filhos fossem grandes músicos. Deu-nos o apoio para estudar música, mas eu mesmo não compreendia totalmente o interesse de minha mãe. Todavia, percebia que eu era dotado de dom musical, pois qualquer instrumento me parecia fácil manusear. Mesmo assim, não dominei completamente nenhum. Frustrei minha mãe.

Presentemente sei que Deus foi muito generoso conosco. A mim deu-me mais que eu podia ter e deu-me estrutura emocional e logística para desenvolver minhas capacidades. Sei que me deu boa dose de aptidão para línguas e sempre soube que sabia lecionar. Deus foi mesmo muito generoso.

Quando cheguei à idade de 17 anos senti vontade de aprender a pilotar aviões. Eu sempre tive muita facilidade para dominar máquinas, andava muitíssimo bem de bicicleta, motoneta e aprendi a dirigir carros sem nenhum professor. Queria aprender a voar e matriculei-me no Aeroclube do Pará, onde comecei as aulas teóricas e práticas e finalmente tornei-me um piloto aviador. No avião nunca senti dificuldades, achava as manobras fáceis de realizar e tinha imensa satisfação em pilotar. Minha coordenação motora sempre foi muito boa e tornei-me um excelente piloto. Parti então para o curso de piloto comercial, o aprendizado que daria possibilidades para assumir o comando de aeronaves comerciais. Viajei a São Paulo para os exames médicos obrigatórios, realizados pelo hospital da aeronáutica. Quando terminei os exames, o médico que nos acompanhou me chamou ao seu gabinete para comentar os resultados dos exames psicológicos e de saúde. O médico começou a entrevista perguntando se eu sabia o que era ser um piloto. Fiquei intrigado com a pergunta, mas não senti maldade na voz do médico, apenas um desejo de orientar. Perguntei-lhe a razão da indagação. Ele respondeu-me afirmando que ser um piloto não era essencialmente diferente de ser um motorista. Então mostrou-me o resultado dos meus testes. Eu havia errado nove vezes. Normalmente, os que saíam da média para cima, naqueles exames, erravam doze vezes; o meu resultado significava que eu estava apto para tarefas mesmo mais complexas. Incentivou-me o doutor a buscar realizar coisas ainda mais altas. Saí daquela entrevista com a sensação única de vitória inesquecível. Minha vida como piloto não foi vivida como planejara, mas sabia que poderia pensar em outras possibilidades. 
Minha família não sonhava que eu ingressasse na aviação, mas meu pai custeou inteiramente o curso de aviação, ou seja, não tolheu meus sonhos dando-me asas para voar o quanto quisesse.

Logo veio a minha entrada na universidade. Acabara de acontecer uma profunda reforma nacional no ensino superior e tudo estava diferente. Fiz opção por medicina e quando cheguei para o curso, logo compreendi que não era vocacionado para ser médico; não me via em hospitais e nem passando a vida inteira com doentes. Desde muito cedo pensava em pesquisa científica e minha entrada no curso de medicina tinha uma razão: buscar o background para entender biologia e encontrar uma carreira de pesquisas em patologia ou parasitologia, ou alguma linha correlata.

Quando alcancei o sexto período, a universidade implantou o curso de Biologia. Então pensei em mudar de curso e realizar meu sonho. Foi muito difícil, pois era senso comum que medicina era uma carreira de elite e, no meu caso, não estar interessado era como se sofresse de desequilíbrio. Assim, depois de uma intensa luta interior decidi cursar Biologia. Nem preciso dizer que no seio da minha família a notícia caiu como um raio. Causei muita tristeza e decepção, mas persisti no meu sonho. Meu pai recomeçou a orgulhar-se quando assistiu minha defesa de tese de mestrado, momento de grande contentamento e realização, quando logrei a nota dez com louvor e distinção. Somente então passei da posição de vergonha para família, para a de vencedor. Minha performance durante o mestrado fora muito boa, tendo sido convidado a permanecer no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, ocupando uma posição como pesquisador. Meus planos não eram esses, almejava ir para os USA onde pretendia fazer o doutorado. No entanto, aceitei e comecei meu caminho como profissional da ciência.

Imediatamente saí para meu doutoramento na Universidade de São Paulo – USP capital, (como afirmei, não estava nos meus planos, mas nos de Deus) e em quatro anos defendia minha tese doutoral na área de Zoologia, e novamente lograra nota dez com louvor e distinção. Deus havia me abençoado de forma generosa. Neste período tive o privilégio de realizar parte do doutoramento nos USA, na maior e melhor instituição de pesquisas do mundo, o Smithsonian Institution, em Washington D.C.. Ali pude ver que Deus estava no comando de tudo e que me levara para São Paulo com muita razão. Minha formação pode alcançar densidade e ser refinada junto a uma das mais importantes autoridades em Zoologia do mundo, o mesmo que insistiu para que eu fosse para a USP. Percebi ali nos USA que se tivesse ido para lá e não para a USP, não teria tido as mesmas oportunidades de aprender com profundidade.

Não passei por grandes dificuldades em minha vida; sempre consegui ser fiel aos princípios religiosos aprendidos no meu lar paterno e seguindo em frente com segurança, retornei à Manaus, ao INPA, onde passei os melhores anos de minha existência. Pude viajar muito, conhecer novas realidades científicas, novas culturas, fazer grandes amizades, ser reconhecido como pesquisador no cobiçado cenário acadêmico, tornando-me assessor da direção da minha instituição e depois ocupando posições com projeção nacional e internacional. Deus me abençoou com capacidade cognitiva, liderança, respeitabilidade. Agora, quando completo mais um ano de vida, reconheço que sempre a mão do altíssimo esteve sobre minha vida, e por essa razão louvo ao meu bom Deus por tudo que me permitiu viver até a presente hora.

Hoje, depois ter caminhado por essa estrada chamada vida, posso retro ver que fui capaz de abençoar muitos que passaram pelo meu caminho. Formei mais de uma vintena de doutores e tenho, em todos, grandes amigos. Mas, olhando para o futuro, quero continuar sendo bênção, cada vez mais, de modo que o mundo possa sentir que estou nele. Meu grande sonho é continuar me desenvolvendo, para alcançar compreensão ainda mais aguda e profunda da realidade e, como consequência, poder ajudar ainda mais. Quero ajudar na transformação de pessoas, especialmente aquelas que me permitem o privilégio de sua amizade. É meu desejo poder catapulta-las a níveis de consecuções mais elevados e ter a certeza de que o mundo também melhorou por causa da existência dessas pessoas. Assim, vou continuar aprendendo e desenvolvendo o meu pequeno potencial para que compreendendo melhor nosso universo possa contribuir melhor para que outros vejam ainda mais perfeito que eu mesmo.


Senhor meu Deus, agradeço emocionado e com toda a minha capacidade de coração e alma, por todos os benefícios recebidos das Suas bondosas e poderosas mãos. Reconheço que se não fora a Sua presença constante, possivelmente meu caminho teria sido muito diferente. Por Sua interferência, às vezes, muito direta, o Senhor foi traçando a minha vida. Tudo o que sou e o que ainda serei, não dependeu e nem dependerá de mim, mas a Sua graça foi suficiente para que eu vivesse e me tornasse adulto. Meu desejo sincero é servir ao meu Deus todos os dias que ainda me restarem. Quero seguir as ordens do meu Deus e quero obedecer voluntariosamente ao que o Senhor ordenar. Obrigadíssimo Senhor por ter arquitetado minha estrada e estou pronto para seguir nas Suas mãos. Amem.