terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Confiando em coisas não confiáveis


No próximo ano (2017) dar-se-á a comemoração conjunta católico-luterana dos 500 anos da Reforma protestante que iniciou em 31 de outubro de 1517, quando Lutero afixou as 95 teses na porta da igreja católica de Wittenberg, Alemanha. Esse momento de comemoração se tornará um marco importante no aperfeiçoamento do poder papal, promovendo a aproximação fundamental com a principal liderança protestante, que poderá resultar no anunciado ecumenismo que antecederá os últimos episódios antes do final da história do pecado. Um dos pontos divergentes entre católicos e luteranos está na justificação pela fé. A controvérsia ocorre no aspecto da obra humana que, segundo Lutero, não pode ser apresentada a Deus como garantidora de méritos à salvação. Assim, o conceito de pessoa justa é o foco da controvérsia. 

Essa questão é muito remota. Aparece no mais antigo livro da bíblia, o de Jó, onde logo no primeiro verso do capítulo inicial Deus o define como íntegro. Tal adjetivo é definido no dicionário como inteiro ou completo, significando ser honrado ou imparcial. O referido conceito não propõe a ideia de impecabilidade, mas, na tradição judaica associou-se a palavra Tzedek = justiça com a palavra Tzedaká = justiça social. Erroneamente traduziu-se esta palavra como sendo caridade. Tzedaká não é caridade. A Tzedaká, seria não só “dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Não só dar o pão, mas oferecer um emprego ou uma bolsa de estudos.  Assim, Jó era íntegro e não santo como quer o conceito cristão. É importante notar que Jó fazia sacrifícios por ele e por seus filhos e, por esse motivo, Deus o considerava íntegro. Integridade somente é comunicada através de atos de fé nas promessas de salvação, ou seja, tomando a justiça de Jesus como produtora de perdão.

O diálogo entre Deus e Satanás no primeiro capítulo do livro de Jó é revelador do estado desse homem considerado um servo de Deus. Assim, nos versos 6 a 12 vemos o que segue: “E num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles. Então o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela.  E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal. Então respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra. Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face. E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR.

Nos argumentos dialéticos acima vemos que Satanás sabia que nenhum homem possui justiça. Assim, ele afirma que a obediência de Jó não era isenta de interesses. O que está em pauta é nossa essência egoísta que não nos permite guardar a lei sem interesses. Nossos atos são pecaminosamente ofensivos se a justiça de Cristo não nos for por cobertura. Tudo parece mais claro a respeito do comportamento humano quando observamos a ação de Satanás, na vida de Jó, na tentativa de comprovar suas afirmações. Ele tira inicialmente a riqueza, a principal pilastra na qual toda humanidade se apoia. Depois o inimigo subtrai a família, outra importante pilastra e em seguida afeta a saúde. Essas três pilastras são parte do arrimo que ampara todos os homens e nelas estava também a confiança de Jó. Como se não bastasse, os amigos de Jó aparecem construindo diálogos que ratificam a ideia de segurança na religião. Esta constitui parte da estrutura de arrimo humano. Para os amigos, Jó estava devendo maior rigor religioso, razão para o sofrimento. Porém, para Jó não havia nenhum passivo religioso que justificasse o seu estado. Por essa razão, um encontro com Deus poderia dar-lhe a chance de explicar o que, segundo Jó, escapava da percepção divina sobre a condição humana. No entanto, no capítulo 38, quando começa o diálogo de Deus com Jó, a divindade não responde a nenhum dos argumentos de Jó, levando-o a entender que sem conhecer ao próprio Deus ninguém pode entender as dinâmicas envolvidas na estrutura terrestre e que dizem respeito à disputa entre o bem e o mal.

Deus não debateu com Jó nenhuma razão para o seu sofrimento. Apenas revelou-se como o Senhor de todas as coisas e a causa primária de tudo, ou seja, se Ele tem tudo sob Seu controle, o sofrimento de Jó era parte do seu plano para aprimoramento. Ao perceber a onisciência de Deus, Jó não pode perguntar nada, apenas se deu conta da própria indignidade.

O apóstolo Paulo parece ter passado por um momento semelhante quando solicitou que Deus o curasse do “espinho” que feria a sua carne. A resposta de Deus foi “a minha graça te basta”, significando que Paulo deveria prosseguir em conhecer Deus; e ele aquietou-se.  

Conhecer Deus deveria ser a tarefa mais importante para todos os que se aproximam dEle. Em Jeremias 9:24 lemos: “Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR”. Há uma razão para tal proceder. O conhecimento sobre Deus trará paz, especialmente nas circunstâncias de uma realidade pecaminosa. Na medida em que Deus se revelar, passaremos a compreender nosso próprio papel na luta entre o bem e o mal, nas várias dimensões nas quais estamos submetidos, ou seja, qual a nossa participação nos plano universal e humano, no sentido de cooperar com nosso Deus na reivindicação da justiça.

Deus revela-se a Jó através de inúmeras perguntas que o levam a perceber que seu sofrimento não era importante em si mesmo, mas uma ferramenta que, no caso de Jó, o levaria a entender melhor o seu próprio comportamento. Assim, pode-se entender algo muito importante: o sofrimento de cada um é pessoal e pode significar que a confiança esteja ainda calcada em pilastras que não podem sustentar. Veja-se o que Jó exclamou “ Então respondeu Jó ao SENHOR, dizendo: Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido. Quem é este, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram inescrutáveis, e que eu não entendia. Escuta-me, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. Agora te conheço, antes apenas tinha ouvido falar”. Essas afirmações significaram a libertação de alguém que estava confiando em coisas não confiáveis. Jó entendeu a onipotência de Deus. A primeira coisa que ele reconhece é o limite de seu conhecimento. Suas conclusões se baseavam na ignorância; portanto, embora ele fosse sincero, estava errado.

Quão inadequado parece ser o conhecimento parcial quando brilha a luz de uma verdade maior! Quando Jó fez suas queixas, seu raciocínio lhe parecia irrefutável. Ele achava que sua atitude era justificada. Mas, quando entendeu a Deus mais claramente, seu raciocínio anterior não mais pareceu convincente. A lógica humana muitas vezes se demonstra falha. Ideias que hoje parecem sábias podem se tornar absurdas amanhã. A disposição de Jó para admitir sua ignorância é elogiável. Ele não tenta se desculpar ou defender sua posição. É tão honesto em sua confissão como foi em sua argumentação. Esta característica é parte da integridade que o relato atribui a Jó desde o princípio (Jó l:l). (SDA Bible Commentary, 690).


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