terça-feira, 1 de agosto de 2017

Vergonha ou Culpa?


Justine Sacco, 30 anos, diretora de comunicação da InterActiveCorp (IAC), usava o Twitter para chamar a atenção das pessoas com piadas. Em uma ocasião alfinetou a organização People for the Ethical Treatment of Animals – PETA, com a seguinte mensagem: “Gosto de animais, mas em dias frios como este até esfolava um por causa da pele” . Noutro momento, depois de uma série de tweets tão agressivos quanto o anterior disse: ”Não posso ser despedida por enviar mensagens intoxicadas, certo?”. Ao chegar ao aeroporto em Nova Iorque, em 20 de dezembro de 2013, a responsável pelas Relações Públicas da IAC continuava sem sensuras a tweetar o que lhe vinha à cabeça. Denunciou o suor de um alemão: “estás em primeira classe. Estamos quase em 2014. Vai comprar um desodorante”. Enquanto esperava seu voo por causa de uma escala no aeroporto de Heathrow, escreveu que os ingleses têm “maus dentes”.
Enquanto aguardava para embarcar na última etapa do voo entre Nova Iorque e Cidade do Cabo, na África do Sul, onde visitaria a família durante o Natal, enviou uma última mensagem para os seus 170 seguidores: “Em direção a África. Espero não apanhar AIDS. Estou brincando! Sou branca!”
Justine Sacco embarcou para uma viagem de 11 horas e aproveitou para dormir, uma vez que naquele avião não havia acesso à Internet. O voo decorreu normalmente, sem sobressaltos. Quando Justine Sacco desembarcou no aeroporto da Cidade do Cabo e ligou o celular, recebeu uma mensagem de alguém com quem não mantinha contato desde os tempos do liceu: “Lamento muito o que está acontecendo”. Logo depois, um SMS da melhor amiga Hanna: “Telefone-me o mais depressa possível”.
As notificações chegavam ao seu celular num ritmo impaciente, deixando-a incrédula, sem saber o porquê. Toque de chamada no celular. Era Hanna. Com voz aflita, informou-a que ela, Justine Secco, a mulher com 170 seguidores, ocupava a primeira posição na lista de trending topics (as palavras mais postadas) do Twitter a nível mundial.
As mensagens não cessavam de chegar: “Enojado com o tweet racista de @Justine-Sacco”. “Como é que esta fulana trabalha em Relações Públicas? O seu nível de ignorância racista está mais de acordo com a Fox News. AIDS afeta qualquer pessoa! ” Uma mensagem incisiva chegou dizendo: “Sou funcionário da IAC e não quero voltar a ver @Justine-Sacco encarregar-se da comunicação em nosso nome”.
Os patrões de Justine Sacco – donos de sites como o The Daily Beast, Vimeo ou CollegeHumor – escreveram um pronunciamento: “Comentário ofensivo e ultrajante que não reflete as opiniões e valores da IAC. Infelizmente, a funcionária em questão está incomunicável num voo internacional, mas isto é um assunto sério e tomaremos medidas apropriadas”. Enquanto ela dormia tudo isto foi acontecendo.
A mídia social transformara Justine Sacco em racista, insensível à pobreza e miséria humanas. Gradualmente, a condenação moral foi-se transformando em divertimento. Quando iria aterrissar? Como iria reagir? Vai ser despedida? Um delicioso sabor a suspense fora adicionado ao molho picante dessa narrativa.
Mais mensagens foram enviadas: “O que eu quero para o Natal é ver a cara da @Justine-Sacco quando receber as mensagens”. “Ela terá o serviço de despertar mais doloroso de todos os tempos”. “Estamos prestes a ver esta fulana ser despedida”. Ela ainda não tinha tomado consciência do que estava acontecendo e nem suspeitava de que estava para perder o emprego.
Ainda não tinha saído do aeroporto e um homem começou a fotografá-la, lembrando um paparazzi assediando celebridades. Era Zac, um utilizador do Twitter que vivia perto do aeroporto e resolvera responder à pergunta mais formulada das últimas horas: #HasJustineLandedYet?
Escreveu alguém. “Então, não há ninguém que viva na Cidade do Cabo para ir ao aeroporto tweetar a chegada dela?” Zac, o Twitter-Paparazzi entrou em ação. E assim aconteceu. Alvo localizado, foto tirada e colocada online: “Sim, @Justine-Sacco aterrou de fato no Aeroporto Internacional da Cidade do Cabo. Está usando óculos escuros para se disfarçar”, escreveu Zac, cheio de brio policial.
Nos seguintes 11 dias ela seria citada no google mais de um milhão de vezes. Ela fora estigmatizada como racista e, como consequência, demitida do emprego. No período de uma noite ele tornara-se persona non grata. Por fim exilou-se na Etiópia na tentativa de apagar o passado.
A nova mídia social tem instigado o retorno de um fenômeno antigo, vergonha pública. Os escritores Jon Ronson (So you ‘ve Been Publicly Shamed) e Jannifer Jacquet (Is shame necessary?) publicaram livros recentes onde discutem tal assunto. Jacquet advoga que a exposição pública ou envergonhar alguém, em alguns casos, pode ser considerado como boa coisa. Isso pode constranger empresas públicas a adquirirem comportamentos mais responsáveis, por exemplo. Já Ronson destaca os perigos. Uma coisa é ser envergonhado pela comunidade à qual você faz parte; outra coisa é ser envergonhado por uma rede global de estranhos que não sabem nada sobre você ou sobre o contexto no qual o seu ato tomou lugar. Isto é como um linchamento, portanto, injustiça.
Tais análises parecem ajudar a compreender o atordoante fenômeno do tzaraat, uma condição longamente tratada em Levítico 13. Tzaraat tem sido traduzida como lepra, doença dermatológica, infecção escamosa. Porém, a identificação de tzaraat com qualquer doença é problemática. Primeiro, seus sintomas não correspondem à doença de Hansen, conhecida como lepra.  Segundo, conforme está descrita em Levitico, afeta não somente humanos, mas também paredes das casas, móveis e roupas (Lev.14:54-55). Não há nenhum problema médico que apresente tais características.
Além disso, a Torá é um livro sobre santidade e conduta correta. Não é um texto médico. Mesmo que fosse, conforme o rabino David Zvi Hoffmann aponta em seu comentário, o procedimento a ser adotado não corresponde àqueles que deveriam ser tomados se tzaraat fosse uma doença contagiosa. Finalmente, tzaraat como descrita na Torá é uma condição que não acarreta só doença, mas impureza, tum’a. É oportuno que se diga que saúde e pureza são coisas diferentes.
O mistério parece decodificado no relato das instancias da Torá nas quais alguém estava afligido por tzaraat. Uma desses relatos aconteceu quando Miriam falou contra seu irmão Moisés (Num. 12:1-15) Outro ocorreu quando Moisés, na sarça ardente, disse a Deus que os israelitas não creriam nele. Sua mão repentinamente tornou-se leprosa como neve (Ex.4:7).
Os comentaristas consideraram tzaraat como punição por lashon hara, falar mal, falar negativamente ou denegrir outra pessoa.
Isto os ajudou a explicar por que os sintomas de tzaraat – mofo, descoloração- poderia afetar paredes, móveis, roupas e a pele humana. Trata-se de uma sequência de avisos ou punições. Primeiro Deus avisava o ofensor enviando um sinal de degradação na parede da casa. Se o ofensor se arrependia a condição desaparecia. Caso contrário, seus móveis eram afetados, então as suas roupas, e finalmente a sua pele.
Como nós compreendemos isto? Por que o falar mal era considerado ofensa assim tão séria que tzaraat era tomada para apontar sua existência? E por que era punido dessa maneira e não de outra?
Foi a antropologista Ruth Benedict em seu livro sobre a cultura japonesa, The Chrysanthemum and the Sword, quem popularizou a distinção entre dois tipos de sociedade – culturas da culpa e culturas da vergonha. Grécia antiga, assim com o Japão, são exemplos de culturas da vergonha. Judaísmo e as religiões por ele influenciadas são exemplos de culturas da culpa. As diferenças entre elas são substanciais.
Na cultura da vergonha, o que importa é o julgamento de outrem. Agir moralmente significa conformação às regras manifestas, leis e expectativas. Fazemos o que outras pessoas esperam que façamos. Seguimos as convenções da sociedade. Se falhamos, a sociedade nos pune submetendo-nos à vergonha, ao ridículo, à desaprovação, humilhação e ao ostracismo.
Na cultura da culpa o que importa não é o que outros pensam, mas a voz da consciência. Viver moralmente bem significa agir de acordo com imperativos morais internalizados: você deve fazer assim e você não deve agir assim. O que importa é o que você sabe ser o certo e o errado.
Pessoas na cultura da vergonha estão direcionadas de outra forma. Elas se preocupam sobre como aparecerão aos olhos dos outros, ou a respeito das suas imagens.
Pessoas na cultura da culpa estão direcionadas para o seu interior. Elas estão preocupadas sobre o que honestamente sabem sobre si mesmas. Mesmo se a imagem pública esteja imaculada, se sabem que tem errado, isto as fará sentir desconfortáveis. Fará acordar durante a noite. Vergonha é humilhação pública. Culpa é tormento interno, íntimo.
A emergência de uma cultura da culpa no judaísmo (portanto interessa ao cristianismo) fluiu de sua compreensão do relacionamento entre Deus e a humanidade. No judaísmo não há atores no palco com a sociedade como audiência e juiz. Pode-se enganar a sociedade; mas não se pode enganar Deus. Toda pretensão e orgulho, o cultivo cosmético da imagem pública é irrelevante: O Senhor não olha para as coisas que as pessoas olham, mas olha para o coração (I Sam.16:7). Culturas da vergonha são coletivas e conformistas. Por contraste, judaísmo, a paradigmática cultura da culpa, enfatiza o indivíduo e seu relacionamento com Deus. O que importa não é se nos conformamos com a cultura da época, mas se fazemos o que é bom, justo e correto. Esta tem sido a postura dos ensinamentos de Ellen White.
A lei da tzaraat parece fascinante; de acordo com a interpretação dos comentaristas, ela constitui uma das raras instâncias de punição por vergonha ao invés da culpa encontradas na Torá. O aparecimento de fungo ou descoloração sobre a parede de uma casa era o sinal público do comportamento errado no privado. Esta era a forma de dizer a todos os conviviam ou visitavam “coisas ruins têm sido feitas neste lugar”. Pouco a pouco os sinais ficavam mais próximos ao culpado, aparecendo na sua cama ou cadeira e, em seguida, nas suas roupas, depois na sua pele, até que finalmente encontrava-se diagnosticado como contaminado:  também as vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas, e a sua cabeça será descoberta, e cobrirá o lábio superior, e clamará: Imundo, imundo.  Todos os dias em que a praga houver nele, será imundo; imundo está, habitará só; a sua habitação será fora do arraial. (Lev. 13:45-46). Estas são por excelência expressões de vergonha. Primeiro é o estigma, a marca pública de desgraça ou desonra (roupas rasgadas, cabelo despenteado). Então vem o ostracismo, exclusão dos assuntos habituais da sociedade. Tais coisas nada têm a ver com a doença, mas com a desaprovação social. Isto é o que torna a lei da tzaraat tão particular: é uma das raras aparições da vergonha pública em uma cultura não baseada na vergonha, mas na culpa. Acontece, porém, não porque a sociedade tenha expressado sua desaprovação, mas porque Deus sinalizou que deveria ser assim. E por que especificamente no caso do lashon hara, falar mal?
 Porque a fala é o que mantém a sociedade unida. Antropólogos têm arguido que a linguagem evoluiu entre os humanos precisamente para fortalecer os laços entre eles, de modo que poderiam cooperar em grandes grupos mais do que quaisquer outros animais. O que sustem a cooperação é a verdade, a confiança. Sacrifícios são realizados em favor do grupo, sabendo que outros são estimulados a fazer o mesmo. Esta é a razão porque lashon hara é tão destrutiva. Ela mina a confiança. Provoca desconfiança entre as pessoas. Enfraquece as ligações que sustentam a unidade do grupo. Se estiver sem controle, lashon hara destruirá qualquer grupo – uma família, uma equipe, uma comunidade, até mesmo uma nação. Daí seu caráter excepcionalmente lesivo; usa o poder da linguagem para enfraquecer o que a linguagem pode criar, ou seja, a confiança que sustenta o vínculo social.
Esta era a razão porque a punição por lashon hara era para excluir da sociedade por exposição pública, estigmatização e vergonha e finalmente o ostracismo.
É difícil, talvez impossível, punir o mexeriqueiro usando as convenções normais do direito – os tribunais e o estabelecimento da culpa. Isto pode ser realizado no caso da difamação ou calúnia, porque são todas declarações falsas. Lashon hara é mais sutil. O falar mal é perpetrado não por falsidade, mas por insinuação. Há muitas maneiras de prejudicar a reputação de uma pessoa sem realmente contar uma mentira.
Alguém acusado de lashon hara facilamente pode dizer, eu não disse isto, não quis dizer isto, e mesmo que tenha feito, eu não disse nada falso. A melhor maneira de lidar com pessoas que envenenam relações sem na verdade proferir falsidades é nomeando-as, envergonhando-as e evitando-as.
De acordo com os sábios, era o que tzaraat miraculosamente fazia nos tempos antigos. Ela já não existe na forma descrita na Torá. Mas o uso da internet e das mídias sociais como instrumento de descrédito público ilustra tanto o poder, como o perigo de uma cultura da vergonha. Só raramente a Torá menciona a cultura da vergonha, e neste caso somente por um ato de Deus, não da sociedade.
Ainda permanece a moral do tornar-se puro. Fofoqueiro malicioso, lashon hara, mina relações, erode ligações sociais e estraga a confiança.  Isto merece ser exposto e envergonhado.
Vivemos momentos solenes que parecem dizer que o final está próximo. Em Apocalipse 22:11 aparece novamente a figura do imundo ou sujo: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda. Conforme vimos, a imundície está atrelada a desunião, desconfiança e desavença. Estas são as características daqueles que não nasceram no reino de Deus. Aliás, em Proverbios 6:16-19 lemos “ Estas seis coisas o SENHOR odeia, e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, O coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, A testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.
(texto adaptado do livro do Rabino J.Sacks “Ensaios sobre ética”)




sábado, 20 de maio de 2017

Uma declaração simples de princípios capitais


Os dez mandamentos têm um lugar especial, não só no judaísmo, mas também dentro das configurações mais amplas dos valores chamados a ética judaico-cristã. Em muitas instituições de justiça ao redor do mundo são encontrados como adorno e referência, permanecendo como a expressão da lei superior a qual está associada a todas as leis humanas.

Dentro do judaísmo, nos tempos do segundo templo, eles eram recitados nas preces diárias como parte do SHEMA (Deut. 6:4-9 a profissão de fé central do judaísmo), o qual tinha quatro parágrafos ao invés de três. No entanto, foram suprimidos do SHEMA, mas mantiveram sua integridade sendo preservados no SIDUR (livro litúrgico) na condição de uma meditação privada a ser dita após a celebração do serviço formal. Na maioria das congregações, pessoas permanecem quando os dez mandamentos são lidos como parte da leitura da Torá. A singularidade dos dez mandamentos, todavia, não é prontamente alcançada.

Como princípios éticos, não os entendemos como novos. Na maioria das sociedades existem leis contra assassinatos, pilhagens, e falsos testemunhos. Mas há originalidade pelo fato de que são apodíticos (necessariamente verdadeiros por evidência e por demonstração). A Torá os chama de aseret hadevarim, que foi traduzido como decálogo.
O que os torna característicos é que são simples e fácies de memorizar. A razão para isto é que a lei não é planejada somente para juízes.

A aliança no Sinai, em consonância com o igualitarismo profundo no coração da Torá, foi feita não como outras alianças promovidas entre reis no mundo antigo. O pacto do Sinai foi feito por Deus com todo o povo. Daí a necessidade de uma declaração simples de princípios capitais que todos podem lembrar e recitar. Mais do que isso, eles estabelecem para todos os tempos os parâmetros da existência judaica que serviu como espelho para o mundo. Para compreender como, vale a pena refletir sobre a sua estrutura básica.

Um tema fundamental é como estão divididos.  A maioria das representações dos dez mandamentos analisa-os em dois blocos, por causa das duas tábuas de pedra (Deut. 04:13), nas quais foram gravados. Rudemente falando, os cinco primeiros são sobre a relação entre humanos e Deus, os outros cinco sobre a relação entre os seres humanos. Há, no entanto, uma outra maneira de pensar sobre as estruturas numéricas da Torá. Vejamos alguns arquétipos.

Os sete dias da criação, por exemplo, são estruturados como dois conjuntos de três dias, seguidos por um sétimo dia todo-abrangente. Durante os três primeiros dias Deus separou domínios: luz e trevas; águas superiores e inferiores, mar e terra seca. Durante os outros três seguintes dias Ele preencheu cada domínio com os objetos apropriados e formas de vida: sol e lua; pássaros e peixes; animais e homem. O sétimo dia foi designado para além dos outros como santo.

Da mesma forma, as dez pragas consistem de três séries de três, seguidas por uma décima toda abrangente e autossuficiente.  As duas primeiras foram avisadas, enquanto a terceira atingiu sem aviso. Na primeira de cada série, Faraó foi avisado de manhã (Êxodo 7:16; 9:13); na segunda série de três Moisés foi comandado para entrar perante Faraó (Êxodo 8:1; 9:1; 10:1) no palácio e assim por diante. A décima praga, ao contrário das outras, foi anunciada desde o início (Êxodo 4:23). Era mais que uma praga, um castigo.

As sete cores do arco ires (vermelho, laranja, amarelo; verde, azul anil; violeta); as sete camadas atômicas, entre outras, são exemplos da estrutura numérica bíblica. No caso do arco ires, são dois grupos de cores e uma abrangente.

Similarmente, parece que os mandamentos estão estruturados em três grupos de três, com um décimo que é colocado à parte do restante. Assim compreendido, poderemos ver como formam uma estrutura básica, a regra de profundidade moral de Israel como sociedade vinculada por uma aliança com Deus, um reino de sacerdotes e uma nação santa (Êxodo 19:6).

Os três primeiros – não terás outros deuses além de mim, não farás imagens de escultura, não tomar o nome de Deus em vão – definem o povo que os observa como uma nação sob Deus. Deus é o senhor soberano. Portanto, todas as outras regras terrenas estão sujeitas aos imperativos globais, vinculando os observadores dos mandamentos a Deus. A soberania divina transcende a todas as outras lealdades (nenhum outro deus). Deus é uma força viva, não um poder abstrato (nenhuma imagem). E soberania pressupõe reverência (não use meu nome em vão).

Os primeiros três mandamentos, através dos quais as pessoas declaram sua lealdade e obediência a Deus acima de tudo, estabelecem o único princípio de uma sociedade livre, ou seja, os limites morais do poder. Sem isso, mesmo na democracia, há o perigo da tirania, contra a qual a melhor defesa e a soberania de Deus.

O segundo grupo de três mandamentos – sábado, honrar os pais, proibição do assassinato – são todos sobre o princípio da preexistência da vida. Eles estabelecem os limites para a ideia de autonomia, ou seja, que somos livres para fazer o que gostamos desde que não prejudiquemos os outros. Sábado é o dia dedicado a ver Deus como criador e ao universo como sua criação. Daí um dia em sete, todas as hierarquias humanas estão suspensas e todos – mestres, escravos, empregadores, empregados, mesmo os animais domésticos – são livres.

O honrar os pais reconhece a preexistência humana (havia vida antes de nós nascermos). Diz-nos que nem tudo é o resultado de nossa escolha – principalmente, o fato da nossa existência. Importam as escolhas das outras pessoas, não apenas a nossa própria. Quando chegamos, o mundo já estava organizado e pessoas que nos antecederam atuaram nele. Nossa compreensão da pré-existência nos impõe humildade, uma vez que encontramos uma construção da qual não participamos, mas usufruímos e poderemos atuar nela. Não matarás reafirma o princípio central do pacto universal com Noé (Gen. 9:1-7), que o assassinato não é apenas um crime contra o homem, mas um pecado contra Deus, de quem somos imagem. Então os mandamentos de quatro a seis formam o princípio básico da jurisprudência da vida. Fazem-nos lembrar de onde viemos, e nos impõe estar atentos no como viver.

O terceiro conjunto de três mandamentos – contra o adultério, roubo, falso testemunho – estabelece as instituições básicas sobre as quais a sociedade depende. Casamento é sagrado porque é a mais forte união humana a qual se aproxima da aliança entre Deus e os homens. Não somente o casamento é uma instituição humana por excelência, a qual se estabelece sobre a lealdade e fidelidade, mas também é a matriz de uma sociedade livre, considerando que a constituição familiar é de livre escolha, logo, uma sociedade se forma a partir da livre escolha porque as famílias são de livre escolha.

A proibição contra a pilhagem estabelece a integridade da propriedade. São direitos inalienáveis a vida, a liberdade, a posse e a busca pela felicidade. Tiranos abusam da propriedade, e o ataque à liberdade atenta contra a dignidade humana. A escravidão é o que nos priva da posse da riqueza que criamos.

A interdição do falso testemunho é a pré-condição da justiça. Uma sociedade justa necessita mais do que uma estrutura de leis, tribunais e agências de aplicação da justiça. Não há liberdade sem justiça, assim como não há justiça sem que aceitemos individualmente e coletivamente a responsabilidade por falar a verdade, somente a verdade, e nada mais que a verdade.

Finalmente vem a proibição autossuficiente contra a inveja. Isso parece estranho se pensarmos nos dez mandamentos como comandos, mas não se pensarmos neles como princípios básicos para uma sociedade livre. O desafio gigantesco a qualquer sociedade é conter o quase inevitável acontecimento da inveja, o anseio de obter o que compete a outro. Inveja está apoiada no íntimo da violência. Foi a inveja que levou Cain matar Abel, fez Abraão e Izaac temerem por suas vidas por causa das suas lindas esposas, levou os irmãos de José a odiá-lo e força-lo à escravidão. É a inveja que leva ao adultério, à corrupção, ao roubo, ao falso testemunho; foi a inveja em relação aos vizinhos que levou o antigo Israel a abandonar a Deus em favor de práticas pagãs do seu tempo.

Inveja é a falha em compreender o princípio da criação como exposto em Genesis 1. Cada coisa tem o seu lugar no diagrama das coisas. Cada um de nós tem seu próprio dever e suas próprias bênçãos; somos amados e queridos de Deus. Vivendo por essa verdade estabelecemos a ordem. Abandonando-a estabelecemos o caos. Nada é mais inútil e destrutivo do que deixar a felicidade de alguém diminuir, porque agenciamos a inveja. O antídoto para inveja é o regozijo com o que temos e não a preocupação com o que não temos.

A sociedade de consumo é construída na criação e intensificação da inveja, a qual leva as pessoas possuir mais e apreciar menos.

Os dez mandamentos continuam a ser os mais simples, os mais curtos guias para a criação e manutenção de uma boa sociedade. Muitas alternativas têm sido criadas e muitas têm terminado em lágrimas. O adágio sábio conservar-se verdadeiro: quando tudo o mais falhar, leia as instruções, ou seja, siga os dez mandamentos.


Texto adaptado do livro “Essays on Ethics” do Rabino Jonathan Sacks.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A terra, o mar e o céu estão cheios de verdade

Todo ser humano na posse do seu arbítrio busca saber a verdade. Sempre que nos referimos à           verdade, a primeira noção que salta no pensamento é a religiosa. Mas, a verdade é ainda mais abrangente, significa entender a real situação, as propriedades e os modos da realidade que nos cerca. A busca pela verdade é a incessante procura na qual a alma humana se aplica para entender o seu papel ou a sua função num mundo muito complexo. Neste sentido, torna-se a busca mais importante.
As religiões se utilizam desta necessidade para atrair prosélitos. Todas dizem esclarecer ou responder aos questionamentos da alma na busca do nexo da vida. Mas, a experiência relatada por maciça parte dos religiosos informa que permanece um vazio não preenchido pelas chamadas verdades teológicas. Por que os códigos de ética religiosos não preenchem o vazio?

Primeiramente, para o mundo cristão, a Bíblia é a escritura sagrada onde estão assentados os princípios que devem ser consultados quando se busca a verdade. Para o ambiente judaico a Bíblia (Torá) contém os oráculos divinos e deve ser compreendida e obedecida. Assim, em Deuteronômio 32:4 lemos “Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é”. A fonte da verdade, de acordo com o texto, é Deus. Se é assim, é fácil compreender a razão pela qual a teologia disponível na maioria das religiões não preenche o vazio. Tal teologia está repleta de verdades humanas e conforme Jeremias 17:9 “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso[...]”, ou seja, não poderá haver verdade em códigos éticos que brotam de corações enganosos. As tradições humanas não conseguem traduzir as propriedades e os modos da realidade que cerca a sociedade. A causa disso é a ausência de justiça nas ações humanas. Religiões baseadas em “verdades” humanas não alcançam o padrão de justiça requerido pela verdade ontológica do universo.

Alguns textos bíblicos são explicativos: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus da verdade” (Salmos 31:5). “Tu estás perto, ó SENHOR, e todos os teus mandamentos são a verdade. A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade” (Salmos 119:151-2). “Mas o SENHOR Deus é a verdade; ele mesmo é o Deus vivo e o Rei eterno; ao seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação” (Jeremias 10:10). Se Deus é a verdade, se os mandamentos são a verdade, qualquer sistema religioso que propõe outro código de ética baseado em tradições humanas, não pode pretender ser a verdade.

Em Salmos 146:6 lemos: “O que fez os céus e a terra, o mar e tudo quanto há neles, e o que guarda a verdade para sempre”. Vejamos, se Deus é a verdade, e se foi Ele quem criou tudo, então poderemos encontrar a verdade na sua criação.

A escritora Ellen White (A Caminho do Lar, p.41) demonstra que “Há maravilhosas verdades na natureza. A terra, o mar e o céu estão cheios de verdade. São nossos professores. A natureza proclama a sua voz em lições de sabedoria celestial e de verdade eterna”. De outra forma, ela confirma o que segue: “Visto que o livro da natureza e o da revelação apresentam indícios da mesma mente superior, eles não podem deixar de estar em harmonia. Com diferentes métodos e linguagens, dão testemunho das mesmas grandes verdades. [...] O livro da natureza e a palavra escrita lançam luz um sobre o outro. Servem para nos familiarizar com Deus, ensinando-nos algo das leis por meio das quais Ele opera” (Educação, p.128). Ora se é através da natureza que se pode aprender sobre as leis por meio das quais Deus opera, então teremos que ir até lá.

Vamos usar o raciocínio dedutivo para analisar alguns aspectos dos sistemas naturais. Quando olhamos o universo com a sua organização, com suas galáxias, vemos uma densíssima massa de corpos celestes em estreita cooperação uns com os outros. As grandes galáxias são centros de gravitação em torno dos quais orbitam galáxias menores. Dentro das galáxias estão os sistemas planetários com uma estrela como centro gravitacional e planetas girando em suas órbitas e equilibrando-se gravitacionalmente uns nos outros.

Se descermos até o microuniverso, encontrando a estrutura atômica, veremos o mesmo sistema cooperativo em atuação. O núcleo com os prótons e nêutrons circundado por uma coroa onde vemos os elétrons mantidos em suas órbitas pela força eletrostática, um incrível sistema de cooperação. São rodas dentro de rodas. Semelhante estrutura aparece na musculatura circular que regula a abertura da pupila ocular.

 Dentro das células encontramos uma organela, a mitocôndria, onde ocorre a respiração celular. Nela ocorre o complicado ciclo de Krebs, uma rota anfibólica, ou seja, uma série de reações catabólicas e anabólicas , com a finalidade de oxidar a acetil-CoA (acetil coenzima A), que se obtém da degradação de carboidratos, ácidos graxos e aminoácidos a duas moléculas de CO2. Na verdade, um incrível sistema de cooperação onde ocorrem vários deslocamentos de moléculas de hidrogênio que vão pulando de um lado para outro com a finalidade de produzir energia. Por outro lado, os principais ciclos da natureza, tal como o das águas, é demonstrativo de como a cooperação é o motor da dinâmica física natural. Na biosfera podemos ver como plantas e animais estão em intima associação para dar continuidade ao ciclo de nutrientes e à própria reprodução. Todos esses aspectos demonstram o que a Bíblia identifica como a justiça de Deus.

Se Deus é a verdade e a sua lei é a verdade, então pode-se concluir através da observação do sistema natural que a verdade é um sistema universal de cooperação.

Olhando melhor o comportamento de Jesus relativo aos sistemas religiosos, não encontramos nenhuma iniciativa para formar uma dissidência do judaísmo ou fundar uma nova religião. A verdade não tem uma relação direta com as religiões, mas, conforme vimos, é um importante sistema de cooperação que aparece subjacente a toda criação. Tal sistema foi referendado por Jesus inúmeras vezes.

No evangelho de Mateus (capítulo 19) vemos que o jovem rico foi instado a entrar no sistema universal de cooperação: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me”. Também vemos o mesmo ensinamento no milagre da multiplicação do alimento. Jesus diz aos discípulos quando O interpelaram reivindicando que o povo estava exausto e com fome (Lucas 9:13) “Dai-lhes vós de comer. E eles disseram: Não temos senão cinco pães e dois peixes, salvo se nós próprios formos comprar comida para todo este povo”. Depois o próprio Jesus demonstrou o sistema celeste (Lucas 9:16) “tomando os cinco pães e os dois peixes, e olhando para o céu, abençoou-os, e partiu-os, e deu-os aos seus discípulos para os porem diante da multidão”.

De outro lado, após a ascensão de Jesus quando da descida do Santo Espírito durante o Pentecoste, os discípulos enxergaram o sistema celeste e estruturam a igreja cristã como um sistema de cooperação que está descrito em Atos capítulo 2:42-44 “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum”. O que vimos acima são apenas alguns exemplos demonstrativos do grande ensinamento contido na Torá, mas os profetas falaram muito sobre o sistema de cooperação, instando para todos entrassem nele.

Desde a igreja cristã primitiva até o presente, ocorreram alterações substantivas da realidade demonstrada por Cristo. A própria igreja encheu-se da tradição humana e voltou-se para uma “verdade” que tem origem no coração dos homens, o qual é enganoso, cobiçoso e egoísta. Não mais foi ensinado o grande princípio escrito na Torá e alertado por Paulo (Atos 20:35) “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”. Os sistemas religiosos cristãos têm ensinado uma nova teologia repleta de ensinos humanos, enganando a muitos com ensinamentos que definem “bênçãos” através de aquisições egoístas. Assim como os judeus pensavam que a posse de bens materiais traduzia a benção de Deus, os cristãos assumiram o mesmo desejo e querem fugir da verdade buscando um evangelho que lhes seja propício ao egoísmo.

A verdade não está em qualquer sistema religioso, mas consiste num grande sistema universal de cooperação. Qualquer sistema religioso que não ensine que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”, não pode pretender ter a verdade. Assim, cuidado com a busca da prosperidade como um fim. Considere que Deus é justo e espera que seus filhos pratiquem a justiça. Esta se define como sendo a atribuição do que é devido a cada um, ou seja, equidade.

Quando Jesus regressar e concluir o processo de expiação (que está em andamento), então estabelecerá novos céus e nova Terra, onde habitará a justiça. Por enquanto, até chegarmos ao grande dia do Senhor, nosso dever é seguir o que exorta Deuteronômio 16:20 :“A justiça, somente a justiça seguirás; para que vivas, e possuas em herança a terra que te dará o SENHOR teu Deus”. Também devemos lembrar que “cada um deve contribuir segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (II Coríntios 9:7). No sistema universal de cooperação, recebemos para dar.