segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A terra, o mar e o céu estão cheios de verdades

Todo ser humano na posse do seu arbítrio busca saber a verdade. Sempre que nos referimos à           verdade, a primeira noção que salta no pensamento é a religiosa. Mas, a verdade é ainda mais abrangente, significa entender a real situação, as propriedades e os modos da realidade que nos cerca. A busca pela verdade é a incessante procura na qual a alma humana se aplica para entender o seu papel ou a sua função num mundo muito complexo. Neste sentido, torna-se a busca mais importante.
As religiões se utilizam desta necessidade para atrair prosélitos. Todas dizem esclarecer ou responder aos questionamentos da alma na busca do nexo da vida. Mas, a experiência relatada por maciça parte dos religiosos informa que permanece um vazio não preenchido pelas chamadas verdades teológicas. Por que os códigos de ética religiosos não preenchem o vazio?

Primeiramente, para o mundo cristão, a Bíblia é a escritura sagrada onde estão assentados os princípios que devem ser consultados quando se busca a verdade. Para o ambiente judaico a Bíblia (Torá) contém os oráculos divinos e deve ser compreendida e obedecida. Assim, em Deuteronômio 32:4 lemos “Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é”. A fonte da verdade, de acordo com o texto, é Deus. Se é assim, é fácil compreender a razão pela qual a teologia disponível na maioria das religiões não preenche o vazio. Tal teologia está repleta de verdades humanas e conforme Jeremias 17:9 “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso[...]”, ou seja, não poderá haver verdade em códigos éticos que brotam de corações enganosos. As tradições humanas não conseguem traduzir as propriedades e os modos da realidade que cerca a sociedade. A causa disso é a ausência de justiça nas ações humanas. Religiões baseadas em “verdades” humanas não alcançam o padrão de justiça requerido pela verdade ontológica do universo.

Alguns textos bíblicos são explicativos: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus da verdade” (Salmos 31:5). “Tu estás perto, ó SENHOR, e todos os teus mandamentos são a verdade. A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade” (Salmos 119:151-2). “Mas o SENHOR Deus é a verdade; ele mesmo é o Deus vivo e o Rei eterno; ao seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação” (Jeremias 10:10). Se Deus é a verdade, se os mandamentos são a verdade, qualquer sistema religioso que propõe outro código de ética baseado em tradições humanas, não pode pretender ser a verdade.

Em Salmos 146:6 lemos: “O que fez os céus e a terra, o mar e tudo quanto há neles, e o que guarda a verdade para sempre”. Vejamos, se Deus é a verdade, e se foi Ele quem criou tudo, então poderemos encontrar a verdade na sua criação.

A escritora Ellen White (A Caminho do Lar, p.41) demonstra que “Há maravilhosas verdades na natureza. A terra, o mar e o céu estão cheios de verdade. São nossos professores. A natureza proclama a sua voz em lições de sabedoria celestial e de verdade eterna”. De outra forma, ela confirma o que segue: “Visto que o livro da natureza e o da revelação apresentam indícios da mesma mente superior, eles não podem deixar de estar em harmonia. Com diferentes métodos e linguagens, dão testemunho das mesmas grandes verdades. [...] O livro da natureza e a palavra escrita lançam luz um sobre o outro. Servem para nos familiarizar com Deus, ensinando-nos algo das leis por meio das quais Ele opera” (Educação, p.128). Ora se é através da natureza que se pode aprender sobre as leis por meio das quais Deus opera, então teremos que ir até lá.

Vamos usar o raciocínio dedutivo para analisar alguns aspectos dos sistemas naturais. Quando olhamos o universo com a sua organização, com suas galáxias, vemos uma densíssima massa de corpos celestes em estreita cooperação uns com os outros. As grandes galáxias são centros de gravitação em torno dos quais orbitam galáxias menores. Dentro das galáxias estão os sistemas planetários com uma estrela como centro gravitacional e planetas girando em suas órbitas e equilibrando-se gravitacionalmente uns nos outros.

Se descermos até o microuniverso, encontrando a estrutura atômica, veremos o mesmo sistema cooperativo em atuação. O núcleo com os prótons e nêutrons circundado por uma coroa onde vemos os elétrons mantidos em suas órbitas pela força eletrostática, um incrível sistema de cooperação. São rodas dentro de rodas. Semelhante estrutura aparece na musculatura circular que regula a abertura da pupila ocular.

 Dentro das células encontramos uma organela, a mitocôndria, onde ocorre a respiração celular. Nela ocorre o complicado ciclo de Krebs, uma rota anfibólica, ou seja, uma série de reações catabólicas e anabólicas , com a finalidade de oxidar a acetil-CoA (acetil coenzima A), que se obtém da degradação de carboidratos, ácidos graxos e aminoácidos a duas moléculas de CO2. Na verdade, um incrível sistema de cooperação onde ocorrem vários deslocamentos de moléculas de hidrogênio que vão pulando de um lado para outro com a finalidade de produzir energia. Por outro lado, os principais ciclos da natureza, tal como o das águas, é demonstrativo de como a cooperação é o motor da dinâmica física natural. Na biosfera podemos ver como plantas e animais estão em intima associação para dar continuidade ao ciclo de nutrientes e à própria reprodução. Todos esses aspectos demonstram o que a Bíblia identifica como a justiça de Deus.

Se Deus é a verdade e a sua lei é a verdade, então pode-se concluir através da observação do sistema natural que a verdade é um sistema universal de cooperação.

Olhando melhor o comportamento de Jesus relativo aos sistemas religiosos, não encontramos nenhuma iniciativa para formar uma dissidência do judaísmo ou fundar uma nova religião. A verdade não tem uma relação direta com as religiões, mas, conforme vimos, é um importante sistema de cooperação que aparece subjacente a toda criação. Tal sistema foi referendado por Jesus inúmeras vezes.

No evangelho de Mateus (capítulo 19) vemos que o jovem rico foi instado a entrar no sistema universal de cooperação: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me”. Também vemos o mesmo ensinamento no milagre da multiplicação do alimento. Jesus diz aos discípulos quando O interpelaram reivindicando que o povo estava exausto e com fome (Lucas 9:13) “Dai-lhes vós de comer. E eles disseram: Não temos senão cinco pães e dois peixes, salvo se nós próprios formos comprar comida para todo este povo”. Depois o próprio Jesus demonstrou o sistema celeste (Lucas 9:16) “tomando os cinco pães e os dois peixes, e olhando para o céu, abençoou-os, e partiu-os, e deu-os aos seus discípulos para os porem diante da multidão”.

De outro lado, após a ascensão de Jesus quando da descida do Santo Espírito durante o Pentecoste, os discípulos enxergaram o sistema celeste e estruturam a igreja cristã como um sistema de cooperação que está descrito em Atos capítulo 2:42-44 “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum”. O que vimos acima são apenas alguns exemplos demonstrativos do grande ensinamento contido na Torá, mas os profetas falaram muito sobre o sistema de cooperação, instando para todos entrassem nele.

Desde a igreja cristã primitiva até o presente, ocorreram alterações substantivas da realidade demonstrada por Cristo. A própria igreja encheu-se da tradição humana e voltou-se para uma “verdade” que tem origem no coração dos homens, o qual é enganoso, cobiçoso e egoísta. Não mais foi ensinado o grande princípio escrito na Torá e alertado por Paulo (Atos 20:35) “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”. Os sistemas religiosos cristãos têm ensinado uma nova teologia repleta de ensinos humanos, enganando a muitos com ensinamentos que definem “bênçãos” através de aquisições egoístas. Assim como os judeus pensavam que a posse de bens materiais traduzia a benção de Deus, os cristãos assumiram o mesmo desejo e querem fugir da verdade buscando um evangelho que lhes seja propício ao egoísmo.

A verdade não está em qualquer sistema religioso, mas consiste num grande sistema universal de cooperação. Qualquer sistema religioso que não ensine que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”, não pode pretender ter a verdade. Assim, cuidado com a busca da prosperidade como um fim. Considere que Deus é justo e espera que seus filhos pratiquem a justiça. Esta se define como sendo a atribuição do que é devido a cada um, ou seja, equidade.

Quando Jesus regressar e concluir o processo de expiação (que está em andamento), então estabelecerá novos céus e nova Terra, onde habitará a justiça. Por enquanto, até chegarmos ao grande dia do Senhor, nosso dever é seguir o que exorta Deuteronômio 16:20 :“A justiça, somente a justiça seguirás; para que vivas, e possuas em herança a terra que te dará o SENHOR teu Deus”. Também devemos lembrar que “cada um deve contribuir segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (II Coríntios 9:7). No sistema universal de cooperação, recebemos para dar.










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